Revista de Cultura

Search
Close this search box.

Revista de Cultura

Search
Close this search box.

Gigantes dão passos gigantescos: O rei da noite, de Hector Babenco

O rei da noite

Miguel Forlin

Garçom, apague esta luz
Que eu quero ficar sozinha
Garçom, me deixe comigo
Que a mágoa que eu tenho é minha
(...)
Mentira noturna de bar
Bar, tristonho sindicato
De sócios da mesma dor
Bar que é o refúgio barato
Dos fracassados no amor

("Bar da Noite", de Bidu Reis e Haroldo Barbosa)

O rei da noite, de 1975, é um filme peculiar. Caso o vejamos tendo em mente o restante da obra de Hector Babenco, talvez haja uma sensação de deslocamento, que poderia ser justificada pelo fato de se tratar do primeiro longa-metragem de ficção do diretor, feito quando ele era muito jovem e inexperiente. Uma outra justificativa teria a ver com este outro fato: é o único a extrapolar o humor além do circunscrito, a ponto de poder ser considerado, sob certa medida, uma comédia. Por ser uma filmografia marcada pelo melodrama, esse é um dado que merece ser salientado.

No entanto, em casos como o de Babenco – cineasta autoral cujos filmes levam nitidamente a sua assinatura -, até mesmo o primeiro filme já possui muitos dos temas e características que reapareceriam de maneira reiterada nos trabalhos seguintes. Se há problemas e defeitos, eles parecem se dever à inexperiência do cineasta, que ainda estava no começo de sua vida artística, embora a exuberância de seu talento e personalidade faça dessa estreia um longa vivo, vibrante e digno de atenção.

Apesar de ser irregular e de não desenvolver o potencial pleno de Babenco (o que aconteceria só mais adiante), O rei da noite é suficientemente interessante para atrair o espectador, tanto em razão da pujança artística e pessoal do seu criador – que dá luz a algumas cenas memoráveis – quanto em razão das relações que mantém, ora por semelhança, ora por diferença, com os demais filmes babenconescos.

Acerca, por exemplo, dessas relações de semelhança, chama a atenção a riqueza com que elas brotam, a começar pelo tema inicial nada estranho à filmografia do diretor: as desilusões amorosas. Assim como Juan (Miguel Ángel Solá), protagonista de Coração iluminado (Corazón Iluminado, 1998), Tertuliano (Paulo José) – afetuosamente chamado de Tezinho pelos mais próximos – também vive uma primeira paixão arrebatadora e frustrante, o que vira uma espécie de sombra a acompanhá-lo por toda a sua vida. Ademais, assim como no filme de 1998, Babenco não recorre a psicologismos baratos, impedindo, assim, que tal acontecimento – ou qualquer outro – seja tratado como a causa dos comportamentos futuros do personagem.

Que um cineasta mostre ter, já em seu primeiro filme, essa segurança em relação ao material com o qual está trabalhando – a mesma que mostraria ter no seu sexto filme – é algo que impressiona e espanta, uma vez que deixar a origem e os efeitos das ações do personagem principal em uma zona de mistério e indeterminação – colocando-o, dessa maneira, na vida real, em vez de fechá-lo em esquemas pré-estabelecidos de representação ou tese argumentativa – não é uma escolha simples de ser feita, principalmente por um alguém ávido e inexperiente.

Para isso, é preciso de coragem, e coragem nunca faltou a Babenco, que fez um cinema desprovido de concessões, o que fica claro na própria figura de Tertuliano. Não determinar explicitamente as razões de certos comportamentos pode ser, por si só, um destaque; não determinar explicitamente as razões por trás do comportamento abjeto de um personagem grotesco é uma opção ainda mais corajosa. Mas, como Babenco sempre preferiu mostrar a realidade da vida a filtrá-la por meio de construções arquetípicas (como é possível notar em todos os seus longas, os quais pulsam como matéria orgânica), não surpreende que o seu filme de estreia não ofereça respostas fáceis às ações repugnantes do protagonista.

Um outro paralelo que pode ser feito entre O rei da noite e os filmes subsequentes de Babenco diz respeito à questão do aprisionamento. Cárceres constituem a essência temática e espacial do cinema do diretor, sejam eles físicos, sociais, políticos, econômicos, psicológicos, emocionais ou amorosos. O drama de se encontrar preso – às vezes até mesmo quando se está em liberdade – é uma situação que aparece repetidas vezes. No caso de Tertuliano, embora possa haver um aprisionamento decorrente da não consumação da sua primeira experiência romântica, ele rapidamente se torna prisioneiro de si mesmo, de sua própria mesquinhez, de seu próprio egoísmo, de sua própria maldade. O ciclo de destruição em que se encontra é um ciclo cuja criação se deve a ele unicamente.

Mas isso vai além, pois, ao ser escravo de si próprio, Tertuliano acaba por incluir, nesse ciclo de destruição, as mulheres com as quais se envolve. Todas as que passam por sua vida sofrem traumas. E é a partir dessas condições que Babenco trabalha simultaneamente – pela primeira e única vez em sua obra – a comédia e o melodrama. Inicialmente, ele divide a narrativa em duas (o que seria feito também em outros filmes): O rei da noite começa como um melodrama sobre Tertuliano e o seu primeiro amor, depois se torna uma comédia sobre os absurdos que o protagonista faz e diz (chegando até a flertar com a pornochanchada), antes de terminar com uma cena final irônica, que seria, nesse contexto, justamente a junção da comédia e do drama.

Entretanto, a aversão de Babenco a esquemas narrativos (o que também é uma forma de aproximar o cinema da vida real) faz com que o filme escape da simplificação por meio do trabalho simultâneo com os dois gêneros. Ao mesmo tempo que há humor nas absurdidades de Tertuliano, surge o melodrama a partir da destruição que essas mesmas absurdidades geram na vida das mulheres que se envolvem com Tezinho. O rei da noite é também sobre elas, sobre a desilusão amorosa delas.

E é principalmente esse trabalho simultâneo com os dois gêneros – que permaneceu exclusivo na filmografia de Babenco – que faz com que O rei da noite transcenda os seus méritos, alguns dos quais já mencionados – a vivacidade e as relações de semelhança com os filmes que o diretor faria depois – e brilhe individualmente, não “apenas” como um filme curioso em que é possível perceber um talento juvenil que apareceria de forma mais consistente no futuro, mas como um filme que é tanto uma estreia quanto um vislumbre, tanto um início quanto um futuro. O rei da noite não reluz apenas em razão do restante da obra do seu diretor; ele possui aquela natureza individual e particular intrínseca aos bons filmes, daí a sua peculiaridade, daí a sua particularidade.

Compartilhe:

Subscribe
Notificar
Insira seu nome
Insira seu endereço de email
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários