Noites cruas

Christian Rohlfs, "A expulsão" (1915-16)

Jean Soter

Capítulo 1

No tempo em que William chegou à cidade, o pasto ainda disputava com a cana a predominância na paisagem. Integrava a primeira turma de migrantes, quando deram a partida na usina.

Fazia muito calor no canavial. A cana chamuscada sujava de fuligem a roupa, conferindo aos cortadores uma aparência trágica e romântica, que lembrava talvez os mineradores de carvão da velha Inglaterra, nos primórdios da Revolução Industrial, imortalizados pela lente de algum fotógrafo talentoso e socialista.

William fez logo uns amigos, e combinavam de parar juntos para almoçar. Trocavam entre si coisas das marmitas: uma coxinha de frango por um pedaço de bife, um ovo frito por uns pedaços de carne de panela, um pouco de abobrinha por uns pedaços de jiló etc.

Na volta do trabalho, depois do banho, reuniam-se no boteco ao lado da pensão.

Nesse boteco, apareciam mulheres, algumas delas cortadoras de cana como eles. Vinham também umas meninas que cobravam pelo amor, um amor muito rápido, no beliche. William teve sua vez, mas se arrependeu: achou que o programa saiu caro demais pra tão pouco tempo. Mas os colegas de quarto pareciam não ter o mesmo zelo pelo dinheiro, tanto que inventaram até uma regra: de quinta a sábado, das sete às dez da noite, se um deles quisesse privacidade, os outros tinham que se ausentar do quarto por uma hora. William foi o único a querer votar contra, mas acabou tendo que aceitar a vontade da maioria.

A farra começou então a correr solta no quarto sete, e William ficava trancado para fora. Como quase nunca fazia programas com as meninas, inventou de vender as horas a que tinha direito, para colegas de outros quartos. Foi uma ideia infeliz, que não compensou a dor de cabeça: abriu o precedente, os demais adotaram o modelo de negócio, e o quarto virou o motel da pensão.

O jeito foi mudar-se. Como justificativa, para evitar possíveis ressentimentos — William entendia-se bem com os colegas de quarto —, defendeu a conveniência de um lugar que oferecesse janta. Foi para a pensão Veneza, que tinha fama de cara e ficava na rua de trás.

William trabalhava, maravilhava-se com a conta no banco, com o cartão magnético. E antes mesmo do final da safra, teve o esforço e a sovinice recompensados: deu entrada numa moto zero, a primeira entre os migrantes. E acabou por despertar a atenção da Geisa Metro-de-Cana, a musa do canavial. O apelido era pejorativo. Diziam, à boca pequena, que Geisa — uma morena um pouco esguia comparada com as colegas, mas de corpo bem torneado — se entregava a qualquer um pelo favor de alguns metros de cana cortados em sua fileira, o que complementaria seus rendimentos. Mas isso nunca se confirmou com segurança.

Começaram o romance num sábado, em um dia de muito calor na cidade. Com um prego quente, os colegas fizeram furos num fundo de garrafa de refrigerante e improvisaram uma ducha, no espaço a céu aberto entre as fileiras de quartos da pensão. A cerveja corria com abundância, igual à água da ducha. As meninas banhavam-se também, usando shorts, o que fazia a cerveja descer mais rápido ainda.

William chegou já no avançado da festa. Ainda nem tinha descido da moto, e jogaram-lhe um balde d’água. Geisa gritou-lhe, de uma mesa:

“Ai que vontade de dar uma volta na garupa de uma moto…”

“Oxe… Só se for agora!”

Geisa levantou-se, e William viu então o tamanho do short. Chegou a ouvir a própria frequência cardíaca, pela violência das batidas do coração.

Geisa subiu à garupa da moto, abraçou-o por trás. William sentiu a pressão macia dos seios…

Na noite daquele mesmo dia, foi com Geisa ao motel Sedução e sentiu-se como um rei. No caminho, o canavial à beira da rodovia parecia uma plantação encantada, misteriosa, sob o luar…

* * *

Depois de algum tempo de namoro, casaram-se. O lar prosperava, com o braço forte de William. Conseguiram financiamento para um terreno nos arrabaldes da cidade, e ergueram uma casa, a primeira do loteamento, solitária em meio ao capim braquiária, como uma legítima casa de pioneiros. Depois de três safras, William teve uma oportunidade como maquinista na usina e o salário melhorou. Disse a Geisa:

“Daqui pra frente, você nunca mais vai ter que pisar num canavial. Vai fazer serviço de mulher, em casa”.

Tiveram duas filhas seguidas, com diferença de idade de um ano e meio. A primeira, Suzana, recebeu o nome da mãe de William. Karina foi a segunda e nasceu num sábado, no dia seguinte a um final emocionante de novela, e por isso recebeu o nome da heroína da trama, que, depois de incontáveis capítulos enfrentando todo tipo de sofrimento e humilhação, terminava rica e feliz, casada com o galã de quem havia se separado lá no início, em razão de uma inimizade entre famílias.

* * *

Uns seis meses após a morte de William num acidente de carro, Karina conheceu pela primeira vez a privação. Contava então dezoito anos, e era uma jovem sonhadora e distraída, criada com muitos mimos pelo pai.

O dinheiro da pensão por morte não era grande coisa, mas era muito maior que as quantias que Geisa estava acostumada a ter em mãos, na época de William. A contabilidade doméstica fugiu do controle: Geisa se comprometia com muitas prestações de roupas, sapatos, celular, televisão. Viúva bonita, quarentona, cheia de vida, tornou-se frequentadora assídua dos botecos do bairro, colocando uma ruga de preocupação no cenho de muitas esposas da vizinhança. Com roupas picantes, sentava-se com desembaraço em mesas só de homens, e fazia amizade com todos: casados, solteiros, jovens que aprendiam a beber, aposentados…

As provisões foram sumindo da geladeira, uma a uma… o iogurte, que William não deixava faltar porque as filhas adoravam, foi o primeiro. Desapareceu também o chocolate em pó, para misturar com o leite; depois, o próprio leite (Geisa só bebia café). Sumiu o requeijão, ficando somente uma margarina velha, esquecida no fundo da geladeira. Acabaram os ovos, o queijo, a mortadela, o pão de forma…

Até que num sábado, acordando às dez, Karina e Suzana não encontraram nada para o café da manhã, à exceção de café mesmo, já meio morno na garrafa. Karina serviu-se de meio copo, e o estômago roncou audivelmente de fome. Lançou à irmã um olhar indefeso e amedrontado, como o de um sertanejo do semiárido à vista do último balde d’água na cacimba… Esperaram pelo almoço, que não houve, porque a mãe estava no boteco. Foram procurá-la.

Encontraram-na em pleno flerte com o Geraldo do Gás, numa das mesas. Foram até lá, perguntaram pelo almoço. Geisa enfureceu-se:

“Duas moçonas desse tamanho, não têm vergonha de vir aqui me encher o saco pra pedir almoço? E eu agora tenho que dar papá na boca de duas moçonas desse tamanho? As madames agora vão ter que procurar um jeito de aprender a fazer um arroz com feijão, que o tempo de filhinha do papai ficou pra trás, acabou!!!”

As meninas olharam-na boquiabertas, plantadas no lugar em que estavam, sem reação. Geisa enfureceu-se mais:

“Estão olhando o quê? Mas espera um pouco que eu vou dar uma correção em vocês é aqui mesmo!”, gritou, levantando-se da cadeira e avançando aos tapas sobre Karina, que estava mais próxima.

“Ai, mãe…”, as duas fugiram, derrubando as cadeiras na correria.

* * *

Em casa, no quarto, avaliaram as marcas da agressão: em um dos lados do pescoço de Karina, ficara o decalque avermelhado de quatro dedos de Geisa, e Suzana tinha um sinal de pancada, na cintura, da trombada com a quina de uma mesa.

Karina ressentiu-se muito da cena, mas Suzana — de temperamento mais dócil e obediente — conformava-se:

“A mãe tem razão mesmo, nós não sabemos fazer nem um arroz…”

“Mas precisava me bater na frente de todo mundo?!”

Depois de um tempo, Geraldo do Gás deixou a mulher com um filho, e veio morar na casa de Geisa. Era um homem de meia-idade, alto, de temperamento difícil. Assim que chegou, começou a esticar o olho pro lado das irmãs. Na ausência de Geisa, puxava assunto, se desmanchava, fazia gracinhas… De Suzana, nunca conseguiu um sorriso, mas Karina dava corda, ficava dengosa, sorria.

A sós com a irmã, Suzana advertia:

“Isso, fique se abrindo pra ele! Ele já não vale nada, você vai ver no que vai dar isso. Se a mãe te vê com esse sorrisinho…”

Karina ouvia, mas não adiantava. Sentia uma satisfação íntima por complicar a vida da mãe, e planejava vingar-se por conta da cena no bar.

A ocasião não tardou. Numa sexta-feira à noite, fizeram um churrasco nos fundos da casa. Geisa havia saído para comprar um maço de cigarros, e Suzana ainda não havia chegado da casa de uma amiga.

Karina insinuou-se:

“Geraldo, você sabe dançar essa música?”

“Sei, por quê? Você não sabe?”

“Eu não sei dançar é nada”.

“Vem cá, eu te ensino…”

Começaram no forró, e Karina — que dançava perfeitamente — colou o corpo em Geraldo, que perdeu a cabeça, apertando-lhe com ambas as mãos as nádegas, que balançavam loucamente sob o fino tecido do vestidinho curto.

Estavam nesse agarra-agarra, quando foram surpreendidos por Geisa:

“Sua putinha!”, avançou aos tapas sobre Karina, numa versão mais baixa da cena do bar.

Karina fugiu para a rua, mas a peça não terminou por aí. Depois de lançar-lhe à cara, ao portão, todo o seu repertório de palavrões, Geisa iniciou um vaivém louco entre o interior da casa e a calçada. A cada vez que chegava ao portão, tinha uma coisa diferente da filha pra jogar na rua: jogou seis vestidos, com cabide e tudo, depois camisetas, saias, tênis, sandálias… No espasmo da raiva, caprichava na cena: trouxe uma gaveta cheia de roupas íntimas, pegou uma calcinha minúscula, tipo fio dental, e esticou-a entre os dedos, exibindo-a ao povo que já se aglomerava na rua:

“Aqui ó, é roupa de puta mesmo!!!”

Por fim, como quem prepara uma machadada, ergueu a gaveta até onde pôde, tomando o cuidado de não deixar cair nada do conteúdo, e jogou-a de uma vez ao chão, de boca pra baixo. A gaveta se espatifou num baque seco.

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