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“Abhaya Mudra”, de Dharma

Carolina Magaldi

Capítulo 1 – Abhaya Mudra

Pelas conversas, olhares e risos compartilhados no bistrô, ninguém poderia imaginar que uma onda estava se formando. Não era nada excepcional ou inesperado. Cada gesto, pensamento e ação tem consequências, e essas se acumulam em ondas, com consequências normalmente esperadas, às vezes inusitadas e, em algumas poucas vezes, catastróficas.

Jade era uma das pessoas capazes de ver essas ondulações. Seu nome enquanto agente catalista era exatamente derivado da forma como as captava, como ondulações de tom esverdeado, pairando entre as pessoas tal como a luz submersa. Era melhor agir do que se arrepender mais tarde. Captou a onda e guardou no camafeu preso ao colo.

Ao sentar-se à mesa, esqueceu qual era o quitute que tinha pensado em pedir. Esse não era um esquecimento derivado do poder místico dos catalistas, mas sim uma versão muito mais mundana para o eclipse de pensamentos: Jade estava nervosa. Ela era extremamente bem-informada sobre como atuar em sua nova função, havia cumprido o treinamento com dedicação e resultados inegáveis, e seu coração estava sempre no lugar certo. No entanto, tinha consciência de que agia com extrema cautela, o que certamente levaria a consequências indesejadas caso não aprendesse a se controlar. Ver as ondas não significava que estivesse imune a gerá-las.

Respirou fundo, e a garçonete sorriu:

“Também costumo apreciar a doçura com todos os meus sentidos. Em que posso ajudá-la?”

Jade sorriu também, já maquinando hipóteses de que a moça de avental cor-de-rosa pudesse ser sensitiva, mas refreou os pensamentos, respirou de forma menos eloquente e voltou ao presente.

“Adoro sua torta de cereja”.

Odiou a forma como se expressou. Não sabia se a atendente tinha algo a ver com a criação da torta, e declarar amor eterno a uma sobremesa não lhe parecia a forma acertada de retribuir a gentileza espontânea da moça, mas era tarde demais para voltar atrás. Sorriu novamente, olhando para a toalha de mesa e reconhecendo o padrão de cores do uniforme com uma atenção desproporcional à informação.

Saboreou a torta de cereja, desviando a atenção dos motivos que teriam levado à formação da ondulação. Essa tinha sido uma parte fundamental de seu treinamento: abdicar da ilusão de controle sobre as causas e consequências daquilo que conseguia observar. Ela era uma catalista, sua função era evitar que as ondulações se acumulassem ao ponto de gerarem suas próprias ondas, antes mesmo que as pessoas envolvidas pudessem se manifestar.

Ela não tinha nem poder, nem autoridade, para evitar que consequências ruins assolassem pessoas boas, o que poderia ser deduzido por qualquer pessoa que lê jornais. As ondulações não são boas nem más, elas não escolhem alvos nem consequências, daí a necessidade de agir com responsabilidade. Se todos agissem assim, ela não teria uma carreira secreta, nem passaria algumas noites em claro.

Fez um caminho diferente de volta para casa, o que também era parte de sua formação. Rotinas trazem estagnação, e catalistas precisam estar alertas e criativos para cumprirem seus objetivos. Seu papel era permitir que o fluxo de energia continuasse a fluir, sem intervir em causas e consequências. Para isso, precisavam se acostumar a perceber as ondas, sem tentar controlá-las. Isso era um desafio particular para a garota. Enquanto repetia mentalmente a instrução, sentiu-se como uma escoteira indo para seu primeiro acampamento. Normalmente não era tão apegada às instruções que recebera, mas a situação havia mudado sobremaneira na última semana.

Ao entrar em seu pequeno e charmoso apartamento, a primeira coisa que viu foi a carta, grudada na porta da geladeira por um imã de girafa. A informação era clara e bastante esperada. Jade agora seria líder de uma célula de Dharma, a organização que treinava catalistas para preservar a ordem do mundo físico e suas conexões com as dimensões espirituais.

Sua formação e dedicação não deixavam dúvidas de que seria uma ótima candidata a líder, mas a velocidade com que a carta chegou a pegou de surpresa. Sentia que precisava de mais tempo para aprimorar suas técnicas e ganhar confiança em suas habilidades. Queria ser motivo de orgulho para aqueles que haviam motivado seu ingresso no sistema de treinamento. O fato de sua mentora ser uma dessas pessoas não ajudava nesse momento.

Catalistas têm uma estranha relação com a memória. Quando começam seu treinamento, iniciam também o processo de desapego de tudo que pode afetar sua percepção das ondas. Isso inclui suas posses, claro. Essas são as primeiras a serem mencionadas quando se fala em desapego, seja em textos sagrados ou em séries da Netflix. O que não te explicam é que essa é a parte fácil. Desapegar do que possui forma física pode ser aprendido, ainda que seja penoso. Abrir mão do inefável é mais complexo.

Começa com o nome, que carrega uma parte considerável de seu senso de identidade. Essa construção em si não representa ameaças ao crescimento espiritual, mas o ego é sempre um problema e saber separar os dois é uma tarefa que deve demorar uma vida inteira para aprender.

Toda vez que sentia como se a montanha fosse alta demais, Jade se lembrava da serenidade no olhar e nas palavras dos monges e monjas que já haviam alcançado a iluminação. Em cada conversa ou lição com eles não restava dúvidas de que eram profundamente felizes, vivendo em meio a um tipo de contentamento com o qual mal podemos sonhar. Isso lhe trazia esperança.

Em seu percurso rumo ao topo da montanha, tinha aberto mão de muito mais do que seu nome. Suas posses mais queridas eram representativas de suas memórias. Fotos, recortes de jornal, ingressos de cinema e de shows inesquecíveis, presentes dados com carinho e atenção. Tudo que antes habitava uma caixa azul de pedrinhas verdes, e que agora existiam somente na lembrança.

Para os catalistas, era importante abrir mão do apego, mas não do amor que emanava das lembranças, por isso o sistema era meio confuso, na sua humilde opinião. Para manter a conexão com o sentimento que costumava residir na caixa, fazia desenhos abstratos, que refletiam a cor do céu quando algo aconteceu, ou incluíam palavras em caligrafia delicada, para ampliarem o sentido de termos que haviam mudado sua vida. Guardava os pedaços de papel entre páginas de livros e, ocasionalmente, nos bolsos das calças jeans. Esse era um espaço privilegiado, fruto de experiências da infância e adolescência.

Fez uma refeição particularmente leve, ainda preocupada com a torta de cereja, que nem teria comido se não tivesse visto a onda. Ironias comestíveis são mais difíceis de lidar do que ela imaginava. Então sentou-se em seu canto reservado da casa e buscou meditar. Encontrar a paz em meio ao caos era a lição número 1 de sua atividade profissional, se é que se pode chamar assim.

Não somente era um requisito, mas também um favor. Para os catalistas e demais envolvidos na Dharma, o caos era um velho conhecido, que levava ao encontro da verdadeira serenidade. Somente em contato com ele seria possível construir o contentamento que levaria à verdadeira paz. Todo o resto era somente a ausência de conflitos.

Jade certamente conhecia o caos, mas ainda estava a alguns significativos passos de distância de considerá-lo um velho amigo. Não obstante isso, era determinada e dedicada, de forma que caminhava com passos cuidadosos e certeiros para se tornar uma pessoa mais completa e evoluída espiritualmente.

Naquele dia, buscou lidar com a ansiedade da promoção que viria, tentando não se cobrar antecipadamente por resultados que trariam alegria àqueles que haviam motivado sua junção à Dharma. Além disso, buscava, acima de tudo, ter uma noite sem sonhos pela frente.

Como se não bastasse conviver com o caos em seus momentos despertos, seus sonhos haviam se tornado convolutos também. Não eram pesadelos, era somente uma conjunção exagerada de imagens, sons, sentimentos e até cheiros que costumavam visitá-la em algumas ocasiões. Alguns elementos eram facilmente reconhecíveis, como o parque em que costumava brincar quando criança, as janelas típicas da arquitetura de sua cidade natal, o broche de sua mãe e as suas canções preferidas de Natal.

Outras imagens, no entanto, lhe pareciam novas, mas eram estranhamente familiares. O brinquedo com que brincava alegremente, mas que nunca havia possuído. Um beijo em lábios rosados enquanto sentia o coração explodir no peito. O beijo tinha cheiro de alegria, como se comemorasse uma vitória. O brilho das estrelas visto da mesa de jantar. Mas não era seu jantar, sua casa, ou mesmo suas estrelas.

Nunca havia vivido aqueles momentos, mas sonhava com eles com certa frequência e tinha a impressão de que lhe pareciam familiares por algum motivo especial. Já havia conversado a respeito desse estranho fenômeno com sua mentora, Penélope. Ela acreditava que tudo aquilo se devia ao Mar Revolto.

Já fazia cinco anos que acontecera, mas muitos ainda sentiam seus efeitos. A maioria, claro, não fazia ideia dos motivos para seus sonhos bizarros, novos gostos desenvolvidos, ou porque às vezes cumprimentavam completos estranhos na rua. A Dharma, Lei que rege tudo e todos, é sustentada por duas representações, a Mandala Diamante a Mandala do Ventre. As duas precisam se manter alinhadas para que a comunicação entre o mundo físico e o espiritual não seja afetada. Isso é fundamental para que qualquer pessoa possa alcançar a iluminação. Durante o Mar Revolto, uma confluência de ondas saiu do controle, afetando a ordem que deveria reger a vida corpórea e suas conexões com as dimensões espirituais. Era precisamente para evitar um cenário como esse que a Dharma treinava seus catalistas e registrava a Grande Narrativa com sua coletânea de experiências.

Eles haviam falhado e as consequências foram sentidas por todos aqueles que deveriam resguardar. Isso era tudo que se falava no treinamento. Qualquer informação mais precisa era guardada a sete chaves pelos líderes. Jade seria agora um deles, mas não esperava ansiosamente o momento em que teria acesso às informações privilegiadas a respeito das ondas de ressaca que haviam afetado tantos. Na verdade, tinha receio do que viria a descobrir e muito medo do que precisaria fazer uma vez que soubesse dos detalhes do acontecido.

Desnecessário dizer, não foi uma noite de sono tranquilo. Mas, ao contrário das anteriores, houve somente uma imagem povoando seus sonhos, vista de múltiplos ângulos e em uma profusão de cores: o irônico aperto de mãos de Malachi, quando soube que completara sua junção. Seu sorriso jocoso brilhava como o sol, enquanto as mãos, sempre mais quentes do que as suas, sacudiam seu braço para que ela se acostumasse a ser reverenciada, como grande líder que se tornaria.

Acordou ainda em meio à lembrança e tentou se lembrar do que havia dito logo depois. Tinha certeza de que era algo a respeito de não ser uma mulher de negócios, ou uma engenheira do Vale do Silício, mas não se lembrava ao certo. Suas lembranças não foram plenamente reservadas após o Mar Revolto, mas quase não tinha lacunas, como os demais sunyas da Dharma. Na verdade, parecia estar repleta de novas memórias, em um processo inverso e ainda mais confuso. A única exceção era Malachi, que aparecia em sonho, mas permanecia elusivo em momentos despertos.

Esse seria um excelente tópico de conversa e treinamento para Jade, se ela tivesse outro mentor. Por suas conversas com outros sunyas e com pessoas que circundavam as ondas que ela recolhia, a jovem tinha certeza de que seu caso era, no mínimo, inusitado. No entanto, a conversa nunca chegava a acontecer, visto que Penélope era mãe de Malachi, e não o via desde o dia do Grande Desequilíbrio, como chamavam os monges que passavam por Dharma.

A maioria dos membros da organização evitavam mencionar O Mar Revolto perto de Penélope, e ninguém tocava no nome de Malachi, de forma que ela não estava sozinha em seu resguardo e covardia. Todos pareciam acreditar que o rapaz havia morrido, como tantos outros naquele fatídico dia, mas ninguém tinha coragem de menosprezar a busca de uma mãe por seu único filho.

Terminou seu café no momento em que ouviu o barulhinho do celular, anunciando a chegada de uma mensagem. Era Bit, avisando em qual salão aconteceria a reunião daquela manhã. Mensagens eletrônicas sempre ficavam a cargo dele, até porque, em uma emergência, ele poderia enviar sem nenhum aparelho funcionando. A primeira mensagem que recebeu em seu celular descarregado foi assustadora. Útil, mas aterrorizante.

A reunião seria no salão leste. Todos os cômodos de Dharma eram excessivamente grandes, na opinião de Jade. Eram todos salões com pisos de madeira, arcos ou amplas janelas que traziam a visão do jardim central, e algumas almofadas nos cantos. Cada um deles provavelmente comportaria uma centena de monges, mas eram normalmente ocupadas por um pequeno número de catalistas, líderes ou mentores.

Jade por vezes acreditava que era uma forma de gerar a sensação de vazio, mas por outras vezes sentia que as ideias fluíam melhor naqueles espaços gigantescos. Em ambos os casos se sentia agradecida por poder frequentar os salões, o que não diminuía sua sensação de pequenez todas as vezes em que cruzava seus portões.

Vestiu sua roupa corriqueira, levando o uniforme na bolsa de carteiro que carregava a tiracolo e seguiu seu caminho naquela manhã em que o sol lutava para aparecer por entre as nuvens. Comprou o jornal por hábito e porque gostava muito do senhorzinho da banca de jornais e seguiu para a Dharma. Uma vez lá, se dirigiu ao vestiário, colocou seu uniforme e sentiu como se o mundo estivesse entrando em foco novamente.

Em sua primeira conversa com Penélope após entrar para a Dharma, sua então futura mentora havia lhe alertado para não usar o uniforme como um substituto para a pele. Nada de bom viria da negação do conforto que deveríamos sentir em nossa própria companhia. Jade esperava ansiosamente o dia em que poderia retomar aquela conversa, tendo superado ao menos uma fase desse processo, mas não seria naquele momento ainda.

Caminhou sentindo a grama sob seus pés, ainda plena com o orvalho da manhã, e percebeu que o sol parecia estar ganhando a batalha contra as nuvens. Dentro em breve o calor iria reinar supremo, mas ainda assim valeria a pena, pelo menos para ela.

Ao entrar no salão a luz se tornou menos intensa e ela pôde perceber que Penélope já estava repousando sobre uma das almofadas. Ela nunca parecia se sentar, na verdade. Era quase como se pairasse levemente sobre o macio artefato, um ser tanto natural quanto transcendental. Fora essa característica e seu tom de voz, um tanto etéreo e sempre calmo, ela era uma mulher bastante comum. Suas sardas conservavam um ar juvenil, que contrariava o coque avermelhado com que ordenava seus cachos.

Jade pensou se o sol lhe agradaria, por rimar com suas mechas, ou se traria desconforto para seus olhos cor de água, além de novas sardas. Achou melhor não começar a conversa com esse tema. Optou por falar do assunto que relegava para segundo plano, e abordar a si mesma:

“Bom dia, mestra”.

“Bom dia, Jade”. Outros mentores tinham apelidos ou nomes afetuosos para se referirem a seus pupilos, mas Penélope considerava tudo muito desnecessário, já que tinham o nome Dharma para utilizarem.

“Meus olhos continuam a mudar de cor”.

“Isso é natural e esperado. Quanto mais você evoluir, mais esverdeados eles ficarão. Seu crescimento não é somente uma transformação. É um retorno à sua forma essencial”.

Jade assentiu, porque tudo aquilo fazia extremo sentido. Ela não sentia como se estivesse se transformando em uma outra pessoa, embora tenha sido essa a sua motivação para ser parte da instituição. Sentia mais como si mesma, ainda que com um novo nome. No entanto, tinha um medo infantil de se tornar menos parecida com as pessoas que encontrava em lugares como o bistrô e eventualmente virar um personagem de conto de fadas.

“Você não vai virar um personagem de mangá, nem em imagem, nem em essência. Então não se preocupe”.

A fala fez com que seus olhos se arregalassem, agora de um verde mais peculiar do que nunca. Parte do motivo residia no estranho hábito que sua mentora parecia ter, quase como se lesse seus pensamentos. Mas o maior susto veio da referência aos quadrinhos japoneses, que seu filho havia apresentado a sua futura pupila, muitas primaveras atrás.

Penélope não perdeu o fio da meada, mas Jade não conseguia decidir se era por conta de um autocontrole espetacular, ou porque aquele havia sido um movimento planejado. Tudo no convívio com Penélope parecia um jogo de xadrez, mas por vezes era um jogo de recreação. A jovem pupila tinha esperança de que aquele fosse o caso.

“Reviu seu treinamento? Teve alguma dificuldade?”

“Revi todas as etapas. As ondas estão mais claras do que nunca, e não tive nenhum conflito de motivação. Meus grandes entraves continuam sendo o excesso de cautela e a interferência com outros catalistas”.

“Não são seus entraves. Nenhum problema te pertence, Jade”.

“Sim…”, disse, com toda a convicção que conseguiu angariar.

“O excesso de cautela tem duas origens: o quanto você deseja ajudar, e o fato de não querer decepcionar ninguém. Esse segundo ponto precisa de transcendência”.

Jade pensou que transcendência podia vir em tabletes efervescentes, que a gente tomasse em doses diárias. Talvez desse até para combinar com a vitamina C que ingeria toda manhã. Sorriu de leve com a ideia estapafúrdia.

“O bom humor será seu aliado nesse processo, até porque ele não é inimigo da serenidade, nem da dedicação”.

Jade fez uma prece para que a conclusão de sua mentora tivesse ocorrido por conta de seu sorriso, e não do seu delírio com a farmácia da evolução espiritual. Ela não adicionou nada à conversa, de forma que Penélope continuou:

“A interferência faz parte da vida, tal como ondas de rádio. Elas não são um problema, e podem até contribuir para um resultado interessante, se você aprender a combinar esforços com alguém que tenha uma leitura distinta, mas complementar à sua. Por isso quero que você colabore com Bit”.

“Faz sentido. Vou me esforçar para que nossa colaboração seja frutífera”.

Toda vez que Jade tentava soar eloquente, algo na frase saía como se fosse um guru fajuto de infomerciais da TV ou de palestras motivacionais. Mas era um esforço genuíno, e esforço era sempre reconhecido na Dharma, de forma que ela se perdoava rapidamente.

“Ele terá os dados complementares de sua tarefa”, Penélope disse, abaixando os olhos para o mudra que fazia com as mãos.

Jade interpretou, corretamente, que aquele era o final da reunião. Os encontros com mentores não tinham duração pré-determinada, assuntos fixos ou metodologia definida, o que costumava enlouquecer Jade. Ela já havia passado dias inteiros com Penélope, e tido reuniões de cinco minutos. Já havia feito percursos nas montanhas, com armadilhas da natureza por todo lado, e tido tarefas de meditação em casa.

Logo no início do treinamento lhe fora explicado que cada pessoa é única, e que tudo que viveriam naquele ambiente seria pensado para suas necessidades. Isso era um voto de confiança, na opinião dela. As escolhas feitas depois disso, no entanto, traziam mais dúvidas do que certezas e pareciam lidar mais com suas fraquezas do que com suas habilidades.

Em muitos momentos durante a primeira fase de treinamento, daria qualquer coisa por um livro, e qualquer canto para lê-lo. Até mesmo abandonado seus sonhos de ter uma biblioteca como aquelas que tinha visitado durante o intercâmbio na Irlanda. Era um abandono potencialmente temporário, mas com um pouco de sorte poderia até contar para sua conta de desapego.

Não lhe parecia particularmente justo que os computadores acompanhassem Bit, enquanto os livros podiam tão facilmente ser retirados de seu convívio. O nome Dharma do rapaz era uma clara referência à maneira com que percebia as ondas, por meio de códigos binários e linguagem de programação. Cada membro tinha uma maneira única de perceber as leis do karma, que sempre tinham algo a ver com suas características pessoais, mas também traziam as sementes das ferramentas que precisariam desenvolver para transcenderem seus apegos e atuarem com serenidade. Era estranho uma habilidade ao mesmo tempo tão pessoal e profundamente enigmática brotar em sua mente e coração, mas esse era um sentimento compartilhado por todos os membros e sunyas, então havia algo de reconfortante na companhia.

Para Bit, as ondas apareciam como flutuações inesperadas nos códigos que utilizava para programar computadores. Por isso, ele se mantinha sempre produzindo novas sequências, mesmo quando não tinha uma máquina por perto. Jade não conseguia sequer conceber o grau de cansaço que deveria estar envolvido nessa sina, e fez uma prece rápida para agradecer o caráter orgânico e espontâneo de suas ondas, antes de encontrar com seu parceiro de treinamento e missões.

Bit estava meditando sob a sombra de uma árvore. Na verdade, era sempre a mesma árvore. Por um átimo de segundo, Jade considerou que talvez ali a recepção fosse melhor, mas se corrigiu imediatamente, com uma pontada de vergonha. O rapaz que buscava a iluminação não era uma antena de celular, pelo amor de Buddha! Riu levemente da expressão adaptada e se aproximou lentamente.

“Olá, Jade. Bom te ver”, disse Bit, antes que abrisse os olhos.

A frase sempre lhe causava espanto, mas havia algo inerentemente honesto a tudo que Bit dizia, como se ele sempre tivesse sido incapaz de mentir ou enganar, mesmo antes de ingressar para a Dharma.

“Olá, Bit! Acabei minha reunião com Penélope agora há pouco”.

“E como foi?”

“Foi como sempre, acredito”, respondeu, com menos entusiasmo do que havia projetado.

“As coisas vão mudar de figura agora, não se preocupe”.

Jade sabia que o rapaz se referia à sua promoção a líder de uma célula, mas esse era exatamente o motivo de sua preocupação. Ao contrário de seu sincero e compenetrado colega, a moça de olhos de cor peculiar não tinha certeza de que estava pronta para a tarefa, nem de longe.

Todas as vezes que se sentia inferiorizada nas conversas, Jade prestava atenção em detalhes aleatórios da aparência ou personalidade de Bit: ele tinha a aparência de alguém vindo do Oriente Médio, ou talvez de um romance que se passava por lá. Tinha um leve sotaque que ela não conseguia localizar geograficamente, mas se expressava em português com uma riqueza de vocabulário que a fazia revisitar o Aurélio com certa frequência.

Todos na Dharma eram desencorajados a conversarem sobre suas vidas anteriores, por questões de apego a identidades que poderiam interferir em seu crescimento espiritual, mas a curiosidade era livre. Ou, pelo menos, não era censurada.

A única exigência era que hobbies de qualquer natureza não interferissem em suas tarefas, o que, no caso, era estudar o trabalho da célula liderada por Bit, aprender sobre seus métodos de liderança e colaborar com seu trabalho, para desenvolver suas próprias habilidades enquanto líder de primeira viagem.

Quem decidia entrar para a Dharma se tornava um convidado, ou bem-vindo. Isso podia acontecer por iniciativa própria, já que a organização não era secreta. Eles tinham até site de internet, fato que ela sempre admitia que tinha sido chocante no primeiro contato. Para o mundo exterior, eram uma organização de voluntariado e de crescimento espiritual budista. Isso era absolutamente verdadeiro, só não era toda a verdade.

Para esses convidados, bastava seguir o treinamento e estarem dispostos a abrirem suas mentes e seus corações para perceberem as ondas, de qualquer forma que se manifestassem. Jade havia sido parte desse grupo, escolhida por ninguém. Por isso, ela sabia que a tarefa era bem mais complexa do que parecia. As amarras e bloqueios que criamos em nosso cerne não são aleatórias, nem surgem sem motivo. Em sua maioria, são muralhas de proteção contra inimigos que normalmente nem sabemos precisar. A tendência à autopreservação costuma falar mais alto, de forma que somente uma parcela minúscula de cada nova turma se une aos catalistas.

Estes não eram privilegiados, nem evoluídos. Eram somente o grupo que decidia dedicar a vida a conhecer os princípios kármicos e preservar a Dharma. O lembrete desse fato era que, ao ingressarem, recebiam o título de sunya. Esse era o termo em sânscrito para o número zero, porque o reinício era parte da vida, e todos tentavam disfarçar o desapontamento com a simbologia, depois de tanta luta e sofrimento para se livrarem de alguns nós que apertavam a alma. O percurso deveria ser toda a recompensa de que precisavam, mas nada impedia que encenassem uma grande passeata com trilha sonora pulsante ao ingressarem nos salões pela primeira vez. Pelo menos Jade assim esperava.

Um segundo grupo de bem-vindos eram escolhidos. Eles passavam pelos mesmos processos e treinamentos, junto com os demais iniciantes, mas já haviam manifestado habilidades para identificar ondas e empatia acima da média antes de chegarem à Dharma. Os mentores estavam sempre atentos a sinais como esses, pois o crescimento de um empata era, por si só, um elemento formador de onda. Isso vinha bem a calhar, na concepção de Jade. Essas pessoas eram especiais, mas não eram afortunadas. Empatas sofrem muito, ao sentirem as dores do mundo. Um dos motivos para sua junção era ensinarem a catalisar a avalanche de emoções que passavam por elas. Por um lado, tinham mais facilidade em abrir as portas da mente e coração para as ondas. Por outro, eram como fios desencapados, dando choques ao entrarem em contato com outros sunyas. Às vezes, literalmente.

Uma vez completada a segunda fase como sunyas, viravam catalistas e, depois disso, poderiam virar líderes de uma célula. Havia também os mentores, e todo líder tinha um, mas sobre eles recaía uma grande dose de mistério, de forma que Jade catalogava as parcas informações que recebia em um volume mental, com direito a marca-texto imaginário. Talvez esse não fosse um hábito saudável.

Jade havia passado um tempo relativamente pequeno como catalista antes de ser promovida a líder. Contudo, ninguém lhe pareceu surpreso com a nomeação, nem com a escolha de Penélope como sua mentora. Na reunião convocada pela carta que repousava em sua geladeira, o mentor de Bit, Adriá, lhe dirigiu a palavra uma única vez. Fez um comentário sobre a efervescência natural da garota, o que a fez lembrar de sua teoria da transcendência em tabletes e suprimir um riso, pensando que talvez o experiente catalista estivesse fazendo o mesmo. Em seguida, colocou as mãos sobre seus ombros e disse:

“Espero que vocês encontrem o que estão procurando”.

Pelo menos uma vez eles poderiam falar português claro.

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