Cinco poemas

John Williams Waterhouse, "Ofélia" (1889)
Coleção particular

Priscila Faria

criar um novo corpo
um continente de versos
meu próprio globo

pelos subterrâneos
enfim, cosmonauta de mim

o menino dorme onde nenhum adulto acorda
caminha sobre a saudade mirando as estrelas
o menino voa alto
carregando um balão de sonhos
tão longe vai que o adulto não vê
o menino constrói mundos
com cores que adultos não sabem reconhecer
o menino vê o mais feio e o mais bonito
de olhos fechados
o menino não está
mas segue

meu corpo feito meu país
entre margens
meu peito feito uma mata
atravessada
por um rio

meu sangue segue o leito
condutor de vida
água infinita
nesse corpo pélago que ainda ama
nesse corpo de água
doce

forte para pegar o feio no colo
acariciar o feio, deixar que chore
não calar o grito do feio, me deixar
ser feia também, perdoar a feiura
querer quem saiba perdoá-la
e me perdoar por ser
humana demais
para amar e ser
amada

sem saber
por onde sai um poema
de qual orifício corte ferida
qual a cor da tinta que o escreve
depois que sai
do gozo da lágrima do sangue do leite
para quem ele serve
a quem ele salvará
além de mim

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Os interiores

Trecho do primeiro capítulo do romance de estreia de João Matias

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