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Cinco poemas de Costura

Gustave Courbet, "Mar calmo" (1866)
National Gallery of Art, Washington (EUA)

Amanda Vital

cascata

minha mãe me ensinou a relaxar: pela água do banho
pedia que deixasse cair no meio das costas e começo
do pescoço por uns segundos até sentir a carne ceder
e afundar :é uma pressão fraquinha que vem furando:
a mãe da minha mãe relaxava com a corrente do rio à
bica :era outro curso: era deixar no começo da coluna
um jato único e bem mais forte salpicando pinguinhos
batia direto no osso saltava em gotas para fora da pele
às vezes choramos: é que há banhos em que é preciso
chorar: vamos eu a minha mãe e a mãe da minha mãe
secar os nossos olhos de alegria de tristeza e de alívio
as mulheres da família sabiam respeitar o ciclo do rio
da cheia à seca molhadas por fora enxutas por dentro
há banhos, minha mãe; há banhos, minha avó: e esses
a gente deixa correr com os pés fincados na gravidade
eterna: e segue lavando a alma até o corpo virar pedra

costura

mãe, hoje eu vi o mar: parecia um lençol de seda
que avó abanava e quando estendia sobre a cama
sempre ficavam algumas preguinhas ela precisava
puxar com cuidado deixando liso sobre o colchão
a maré também evita preguinhas por cima da areia
o mar é um bocado de avó perfeccionista de gênio
instável a estender um imenso tecido infinito para
cosê-lo: o mar afinal é uma avó abanando as águas
em viscose azul em tafetá turquesa em seda verde
espetando barcos em pequenas almofadas de areia
um ventilador atrás da nuca a assoprar suas ondas
os pés no pedal: os pés nos pedalinhos: duas mãos
deslizando numa bancada de granito a desfazer-se
entre os dedos: uma fita métrica anil no horizonte:
mãe, hoje eu vi o mar e meus cabelos têm retalhos

broto

em 1965 joão cabral de melo neto dizia que a poesia
era como catar grãos de feijão que boiavam na água
nos tempos de vó não se catava feijão assim: sempre
era encher três mãos dentro do saco de juta despejar
tudo em cima da mesa e dedilhando pedra por pedra
milho por milho fazia um pequeno monte no colo em
cima do vestido para levantar a barra da saia jogar no
lixo lavar o que sobrou na bica ao lado das pastagens
aproveitar completar a panela para deixar cozinhando
ao redor do fogão as meninas aprendiam pelos olhos
medir a água contar o tempo macerar o alho com sal
e refogar com banha de porco o feijão da vó era feito
de um silêncio mineiro de fazer qualquer poesia ficar
só espiando na ponta dos pés pela janela dos fundos

latifúndio

eis a parte que me cabe neste latifúndio:
um copo de vinho para me dar coragem
uma boca precisa para oferecer a minha
uma conversa de velha para me lembrar
um estojinho que me sacoleje os trocos
uma mão para pedir gomos de tangerina
um problema para resolver nos silêncios
uma brasa que não durma quando apago
uma flor murcha enfiada cabelo adentro
um peito ainda sensível para as ternuras
uma noite a cair à frente dos meus olhos
um poema por dia ou o quanto me baste

metamorfose

não ter as pernas de anos atrás rijas como cenouras
saudáveis e enterradas em buracos no mesmo ciclo
rotativo de terras: ser a mesma nas renovações dos
plantios trazer ranhuras que nunca mudam de lugar
ser um par de pernas sugado pelas areias movediças
vezes sem conta até que chega essa derradeira hora
a um minuto do espanto a segundos da necessidade
escapar rolando de mansinho ultrapassando o cerco
hoje dei para não ter mais as pernas: desconheço-as
desconheço os solos para onde sempre me submergi
hoje só dei para migrar como migram as andorinhas:
levo a terra sob as asas na quina dos ossos à partida
trago o coração no bico para saber me guiar na volta

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