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As cartas de Lydia

Stephanie Beatriz e Onahoua Rodriguez na peça Lydia. ©Carol Rosegg, 2009

Rafael Rocca dos Santos

A representação de deficientes na literatura não recebe grande atenção do público geral e poucos exemplos podem ser citados que lançam luz sobre personagens com deficiência. Talvez um dos mais famosos seja o caso do protagonista de Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que constrói uma alegoria da beleza interior revestida de uma carapaça grotesca. Não se trata aqui pura e simplesmente do grotesco literário, mas sim de uma representação mais sóbria e crítica da vida pessoal sob o jugo da deformidade. No cinema, há exemplos de protagonistas deficientes; porém, em grande parte, trata-se de personagens planas, sem maiores significações, aparentemente postas ali para aumentar a sentimentalidade do roteiro, o que as transforma em objetos de misericórdia olhados de maneira condescendente. Poucas obras buscaram mergulhar na vida interior de personagens deficientes, talvez por falta de interesse, talvez por ser um tema delicado e que merece um tratamento específico a fim de transmitir o íntimo da personagem de uma maneira que não se a estereotipe.

Lydia (Samuel French, 2008) é uma peça dramática escrita por Octavio Solis (1958-), dramaturgo nascido no Texas, Estados Unidos, de ascendência mexicana. Nela, o autor coloca em cena a personagem central, Ceci, que é tetraplégica e mentalmente debilitada, fruto de um acidente ocorrido anos antes do tempo presente da peça e que dá causa à ação representada. A obra traz a história de uma família de mexicanos e seus descendentes: dois deles, a mãe o pai (Rosa e Claudio), nascidos no México e imigrantes de primeira geração nos Estados Unidos, e os filhos (Ceci, Misha e Rene), já nascidos em território estadunidense e, portanto, cidadãos legais naquele país.

Exceto por Ceci, todos os personagens têm voz e se movimentam pelos cenários da peça; ela, presa a uma cama, apenas observa a dinâmica da casa e, à sua maneira, reage, emitindo grunhidos que os demais interpretam como acreditam entender, e por isso contrariam seus desejos na maior parte das ocasiões. Claudio é um pai quieto, ausente, profundamente perturbado pelo acidente da filha, cuja culpa ele põe em si mesmo e, por isso, martiriza-se. A mãe, Rosa, é paciente e ama profundamente os filhos, embora tenha críticas ferrenhas ao mais velho deles, Rene. Ela divide a atenção dispensada à filha com Misha, um garoto de dezesseis anos que observa e entende a decadência da família e as suas múltiplas relações de crime e de castigo. Ele divide com a mãe o cuidado da irmã Ceci. Rene é o irmão mais velho, intensamente perseguido pelo sentimento de culpa em relação ao acidente da irmã, o que o leva a ser violento, impassível, inconsequente e perigoso para a família, dividindo, assim, espaço com o pai na dinâmica de martírio em relação à sua irmã. Rene é homofóbico; organiza assaltos e espancamentos de homossexuais no bairro onde mora. Essa atitude revela, segundo o texto do drama, a sua própria homossexualidade, escondida mas dividida com o primo Alfredo, com quem teve breves relações no passado e cujo sexo, sendo Ceci sua testemunha a bordo do carro em que passeavam, é a causa imediata do acidente que vitimizou a irmã.

A peça aborda a convivência violenta no seio da família, violência essa mais psicológica do que física: o trato entre os irmãos e o pai se dá, especialmente, sob uma brutalidade silenciosa, traduzida em palavras ríspidas e parcas e dando margem a ressentimentos e à ausência de afeto, o que o menino Misha consegue canalizar positivamente para o cuidado com a irmã. Misha é ligado aos estudos e gosta de escrever poemas, o que é visto pelos homens da família como algo emasculado. No entanto, e apesar disso, Misha nutre em segredo o gosto pelas letras e deposita nelas a sua confiança como uma maneira de empreender uma fuga da difícil situação na casa.

Essa dinâmica é subitamente interrompida – e pode-se dizer subvertida – com a chegada de Lydia a casa. Ela é uma imigrante sem documentação que busca emprego a fim de conseguir dinheiro para se legalizar. Para tanto, torna-se empregada doméstica da família. Porém, logo de início, percebe-se que Lydia possui dotes peculiares no cuidado com a casa, na atenção que dá aos detalhes do cotidiano dos moradores e, principalmente, no cuidado com Ceci. Surge uma relação de identificação quase instantânea entre ambas as garotas e, inexplicavelmente, Lydia parece de fato entender o que Ceci pensa e deseja entre seus balbucios.

Lydia é uma figura de cura, de compaixão e de salvação. A entrada na casa precisamente no momento em que tudo parecia desmoronar inicia um processo de cicatrização de algumas feridas e de exposição de outras. Ela tem uma relação sexual com Claudio, o pai, que parece curá-lo do laconismo, libertá-lo pela primeira vez e falar sobre o acidente e a intensa culpa que sente por falhar em proteger a filha. Não se trata, porém, de uma remissão, mas sim da atenção a um trauma que lhe retorna como obsessão materializado em uma rotina extenuante de trabalho e na necessidade de solidão e de afastamento das imagens que lhe causam dor. Lydia, nesse sentido, opera como que um milagre, fazendo com que Claudio tente dialogar com seus filhos e busque entendê-los à sua maneira, quieta porém cuidadosa.

No entanto, no clímax da peça, em meio a um ritmo frenético de diálogo, Octavio Solis nos coloca dúvidas sobre o realismo do drama, até então aparentemente indiscutível, em uma cena na qual Lydia traduz os grunhidos de Ceci para todos os presentes. O artifício está em que não era possível que Lydia soubesse o que estava dizendo, pois o que traduzia de Ceci era precisamente o segredo guardado por Rene e Álvaro sobre a noite do acidente no qual ela se tornou deficiente.

(Ceci convulsiona de terror e Lydia corre para segurá-la firme. Misha olha para Álvaro)

Misha. Vai nos contar o que está acontecendo aqui? Alguém vai nos contar?
Ceci. Ghhhn.
Lydia. Ela vai.
Álvaro. Quê?
Misha. O que você tá falando?
Ceci. Ghghggn.
Lydia. Ela sabe. Ela estava lá.
Ceci. Ghgn.
Lydia. Ela está lá agora.
Rosa. Ela está?
Ceci. Gghfnhsss
Lydia. Diz que Rene e eu
Ceci. Ggffeggh-ghfhn
Lydia. Dirigindo de madrugada
Ceci. Gghaagg
Lydia. Para a casa do Álvaro
Ceci. Ttte-tttteee
Lydia. Delirantes como formigas
Ceci. Ghhhngnn
Lydia. Rene dirige
Ceci. Hhghhhh.
Lydia. Mas eu me escondo no banco de trás. Agachada no chão do banco de trás.
Ceci. Porque quero fazer uma surpresa! Quero ver a cara do Álvaro quando me rever! Festa!
Lydia. Ela diz
Ceci. Escuto o rádio tocando e sinto o vento entrando pela janela aberta e vibro de ansiedade! Vou deixar eles doidos!

O peculiar da peça de Solis é retratar a profundidade de uma personagem que seria, de outra forma, plana. A palavra da deficiente, inacessível aos ouvidos dos demais personagens pelo mutismo dela, torna-se audível para a plateia, como se ela fosse uma narradora a relatar fora de cena os seus sentimentos, as suas angústias e as suas dúvidas em relação à (sua) vida. Com uma carga erótica profunda, Ceci quer sentir prazer, quer ser tocada, quer ser compreendida, o que lhe é negado devido à sua situação de imobilidade física. Em uma cena final forte, ela guia a mão de Misha às suas partes íntimas, como um último ato de desespero antes do final da peça. Misha subitamente compreende o que Ceci pretende, sente uma certa aversão, porém parece ter presciência de que aquele poderia ser o ato final da irmã. Consumado esse ato, não é possível saber ao certo, pois nesse momento da peça o realismo está posto em xeque, se Ceci continua viva ou se, devido à sua condição frágil, ela falece, sendo o desejo sexual o último resquício do ser humano vivo que existia ali, antes do acidente.

O drama de Octavio Solis, que carece de uma tradução ao português, é uma representação crua da situação de imigrantes em uma terra estranha, em uma terra que, na realidade, somente os tolera como uma reserva de mão de obra barata que, paradoxalmente, mantém o país em funcionamento. Essa situação paradoxal cria no seio da família conflitos intensos, que misturam a recusa externa de aceitação com a criação de uma forte culpa interior, fruto, em parte, do rebaixamento social sofrido pelo imigrante em chão alheio. As atenções se alteram somente quando um elemento externo passa, no fundo, a aceitar a família como ela se apresenta, nua e crua, ainda que esse elemento – Lydia – seja ele próprio fruto da subserviência a que estão submetidos os imigrantes.

A tradução e a montagem da peça no Brasil seria de grande valia para, se adaptada, retratar as migrações internas no eixo nordeste-sudeste, cuja situação, segundo os melhores estudos na área, se assemelha àquela dos imigrantes nos Estados Unidos. Não menos importante, a representação da interioridade de um personagem deficiente, situação retratada por Solis sem embelezamentos, torna-nos mais atentivos às múltiplas dificuldades que a imobilidade e a perda da fala causam, instaurando uma instância subjetiva de fato existente e diversas vezes relegada a segundo plano na representação ficcional de pessoas nessas condições.

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