Ivanes Freitas
Ele ia reencontrá-la. E, se não fosse por iniciativa dela, que o chamara de última hora, sem dar brecha para recusa, esse reencontro se adiaria ad infinitum. Que não viesse com desculpas, ele devia ir pois ela tinha algo para entregar e assuntos a resolver; concluíra, finalizando a chamada de vídeo.
Ele ia reencontrá-la depois de uma prolongada ausência, e a expectativa de finalmente revê-la o deixava ansioso. Os motivos, os mais absurdos, por que fora ali chamado vinham à lembrança, menos o real e o mais óbvio, levando em conta essa amizade que resistira a tantas desavenças e desencontros: ela apenas gostaria de vê-lo uma última vez.
Logo que ele pôs os pés no bar combinado, avistou-a lá no fundo, no lugar que ela escolhera para fugir do rebuliço da entrada: costas voltadas para a parede pichada, cotovelo fincado na mesa de madeira, uma mão apoiando o rosto levemente inclinado, olhos semicerrados, o indicador da outra mão deslizando na borda de um copo americano pela metade. Os anos não lhe tomaram a beleza; antes, acentuaram-na.
E bastou vê-la para que o anseio que sentira no caminho se transformasse em vexame: ela, vestida com o aprumo que o gosto e a profissão pediam; ele, de bermuda, camisa com estampa, chinelo de dedo, cabelo assanhado, barba por fazer. Por que não se arrumara? Na pressa, foi do jeito que estava.
Ignorando os acenos de cabeça do dono do bar, não por mal, mas por não os ter visto, encaminhou-se até a sua amiga, contando os azulejos do piso. Ela, ouvindo passos se aproximando, voltou os olhos. Reconhecendo a figura desleixada um amigo que não via há quase uma década, sorriu, a princípio, contente; depois, desfeita a primeira impressão, frustrada.
“Pensei que não viesse, como daquela vez, lembra?”, ela disse, levantando-se para cumprimentá-lo. Ele, engasgado com as palavras catadas a custo, ensaiou uma desculpa, mas foi interrompido por um amplexo que, desajeitado, retribuiu. Ela, bem mais alta do que ele, inclinou-se para lhe beijar a bochecha, com os lábios quase encostando o canto da boca dele.
“Como está? E as coisas, bem mesmo?”, ela perguntou, afastando-se um pouco para vê-lo melhor.
“Bem, até que bem, sim”, tartamudeou. “Ainda dou aula e, no tempo livre, quando não assisto a uma bobagem qualquer na televisão, releio um livro… sempre os mesmos caras”.
Ela voltou para o seu lugar. Ele puxou a cadeira livre à frente dela e se sentou.
“Bom, bom. Fico feliz em saber que você está bem. Ainda dando aula, né? Quando me disse que ia começar a dar aula, e em escola particular, além do mais (faz tempo isso, nossa!), pensei que ia pedir logo as contas; você, impaciente e de pouco papo como é…”
“E você? Pensei que estivesse fora… se apresentando, dançando…”, calou-se, envergonhado, já que nunca fora a apresentação alguma dela.
“Sim, aconteceram algumas coisas. Sempre acontecem, né? Enfim, as últimas apresentações foram canceladas e, sem ter o que fazer onde eu estava, resolvi voltar”.
Não esperando resposta, ela levantou o braço e, a um garçom que passara, apontou em direção à mesa. Para um bom profissional, um simples gesto basta. Ele trouxe outra cerveja e um copo. Encheu-o, completou o dela e se retirou.
Ele, depois de tomar um gole, perguntou, apontando para uma bolsa jogada na cadeira ao seu lado:
“O que você disse que tinha para me entregar está aí?”
“Não. Estão no carro, lá fora. Já já eu pego”. E, olhando para ele, com as costas das mãos no queixo, perguntou-lhe se ainda escrevia – adorava os seus poemas, em especial os que ele lhe dedicara -, se se casara, se realizara pelo menos a metade dos projetos que esboçara aos trinta anos.
Não. Parara de escrever. Não via mais graça nas coisas que fazia, nem na literatura que não fosse a dos caras que elegera importantes – uns dez ou quinze, no máximo (dos quais só lia dois ou três). Disse ainda que o único prazer em fazer projetos era poder abandoná-los, principalmente os promissores. Quanto mais velho, mais preguiçoso, concluiu.
Ao último comentário, ela sorriu à sorrelfa. Aquela acidez não era do seu feitio. Continuou olhando para ele, sem dizer nada; e ele, olhos voltados para o copo de cerveja, batia com o indicador na madeira da mesa, acompanhando uma música que chegava da rua, tímida. Tentava encontrar naquele homem à sua frente, já um tanto envelhecido, o rapaz que conhecera e, quiçá, amara (nem ela sabia direito). Ele era um pouco triste, sim; mas não era conformado. E, para ele, aquele rapaz que ela buscava tão insistentemente não existia mais, talvez nunca tivesse existido.
“Poxa, você devia voltar a escrever”, ela disse, por fim, quebrando o silêncio que se instaurara entre eles. À sugestão da amiga, ele respondeu com uma careta. Nunca teve ouvido para poesia ou assunto para prosa. Se escrevera, foi de enxerido e, se insistira, foi por teimosia. Por não escrever por si, mas para outrem, melhor seria parar. E parou.
“E pra quem escrevia, então?”, inquiriu, bem séria. Ele se encabulou com aquela pergunta. E, porque tivesse parado com os batuques na mesa para ouvi-la, voltou à percussão, procurando nas batidas onde se esconder.
Achando graça do embaraço dele, ela riu gostosamente. Num átimo, pensou ter voltado ao que era. Antes, ela se divertia com isso: era engraçado deixá-lo vermelho, testar o seu limite. Mesmo desejando rememorar brincadeira antiga, não insistiu. Falou então de outras coisas: sobre os estados que conhecera, sobre os países para os quais viajara, sobre as pessoas com quem convivera, sobre a dança e as apresentações, sobre o livro que publicara (e que ele não lera). A princípio, ouviu-a indiferente; depois, mostrou interesse, ainda que pouco. Ao ouvir sobre as pessoas, percebeu um rosto ignoto entre elas e sentiu uma pontada de ciúme. Ao ouvir sobre o livro, que vendera até bem, segundo ela, sentiu-se outra vez envergonhado. Não sabia da sua publicação. Se ele soubesse, teria comprado, teria até lido.
Ele, para que aquilo parecesse mesmo uma conversa, fez um e outro comentário, uma e outra pergunta, que ela, com muito gosto, ouvia e respondia. Pensou que o amigo começou a se soltar. Ele também falou um pouco de si, sobre a rotina – nada interessante -, sobre as aulas e os alunos dos quais gostava (pero no mucho), sobre os seus pais, que a queriam tanto. Deixou de fora um e outro assunto que, embora tivessem certa importância para ele; não cabiam naquela mesa. Ela fez um e outro comentário, uma e outra pergunta, que ele respondia de forma vaga. A propósito dos pais dele, ela tocou de leve em dias nos quais eram muito amigos, mas, ao ver que ele não esboçou reação alguma, desistiu.
Acabada a cerveja, esgotada a conversa, ela se levantou:
“Venho já. Vou lá fora pegar suas coisas”, ela disse. Ele assentiu com a cabeça e, os olhos pregados no copo seco, acompanhou-a com os ouvidos.
Antes, porém, de ir ao carro, estacionado na esquina, parou no balcão, trocou duas palavras com o dono do bar. Ela tirou o celular do bolso e o pôs sobre uma maquininha. Depois, voltando-se para o garçom que a atendera, pediu-lhe uma saideira. Pedida a cerveja, paga a conta, saiu.
Ele, com os olhos ainda no copo americano e os ouvidos atentos a uma música que, tímida, vinha da rua, acompanhava o ritmo com o pé direito. Onde a ouvira, mesmo? O garçom trouxe a saideira: colocou o litro no isopor e encheu os copos. Ele, desperto pelo movimento, agradeceu-lhe com um aceno; este retribuiu com um sorriso ambíguo. Bebericou a cerveja e voltou à música. Onde a ouvira, mesmo? O indicador batia na madeira da mesa, seguindo o ritmo.
Passados instantes, ela voltou. Ao vê-lo meio disperso, bateu de leve em seu ombro. Trazia consigo um caderno, um livro — que comprara para o aniversário do seu amigo — e uma pintura em aquarela.
“Aqui”, ela disse, entregando as coisas. “O caderno é um diário que mantive na época da faculdade. Você é um personagem recorrente”. E vendo que ele tencionava vê-lo ali: “leia depois, quando chegar em casa”. Depois de esvaziar o copo, continuou: “um livro de Baudelaire que comprei em um sebo de Paris. Pelo que lembro, você sempre o quis. E aqui, ó, um retrato seu que pintei antes de a gente se afastar. É um pouco abstrato, mas é você”. Ele agradeceu os presentes. A aquarela, ele a emolduraria; o diário, tão logo chegasse em casa, o leria. Já o Petits poèmes en prose, ele o deixaria guardado.
Ela sorriu, meio triste. Fez que sim com a cabeça. Sacou o celular do bolso, consultou a hora. Estava tarde; melhor ir andando.
“Me acompanha até o carro?”, perguntou. Claro. No balcão do bar, tencionou pagar a conta. Já estava paga, disse o dono do bar, apontando para ela. Ele olhou para a amiga: deixasse para ele. Besteira, não era nada. Saíram.
Na esquina, antes de ela entrar no carro, ficaram ali, parados, um olhando para o outro, em silêncio. Ela enfim o abraçou e, inclinando-se levemente, beijou-lhe a boca. Beijo breve e insípido. Sem dizer palavra, afastou-se, acenou com a mão, entrou no carro e partiu. Ele ficou ali, sem reação, olhando-a partir, até que desaparecesse ao alcance da vista. Aquele beijo, insípido como a sua vida, deixou um gosto de vinagre na boca. Era como se, em vez de selar uma amizade, a desmembrasse.
Com os presentes em mãos, ele também partiu rua afora.