Gatos e geleia

Cornelis Visscher, "O gato grande" (1657)
Instituto de Arte de Chicago

Vitor Bighinzoli

O gato número 89 morreu às 4:17 da manhã. O cheiro de torrada queimada alertou Winston antes que o bip de seu bracelete disparasse daquele jeito odioso de sempre que soava feito uma galinha com abstinência de Fentolyn-Z.

O trabalho de Winston era remover os corpos dos gatos e limpar a geleia espalhada pelo chão do reator, assim como drenar o vômito e as fezes coletadas pelo tubo que entrava por suas bocas e saia por trás. Descobriu-se há centenas de milhares de anos que gatos sempre caem em pé e, depois, com a invenção da geleia e em consequência da geleia, a torrada com geleia, descobriu-se que o pedaço de pão queimado vivo untado com geleia sempre caía no chão virado para baixo. Poucas coisas irritam mais do que isso, como derrubar um copo de leite com achocolatado, mas isso não vem ao caso. Era a combinação desses dois fenômenos que movia a experimental e enorme espaçonave intergaláctica Felix Perpetuum. Milhares de gatos eram criados para o propósito final de serem acoplados a uma fatia de torrada com geleia e arremessados no ar, gerando assim uma quantidade de energia gigantesca. A espiral de aparente energia infinita, no entanto, levava os gatos a óbito em tempos que podiam variar de alguns dias a até mesmo um século. Estudou-se para entender quais gatos e que tipo de vida haviam levado para que durassem mais tempo que os outros, mas nunca haviam chegado a uma conclusão daquelas que você pode bater a testa em uma parede e dizer, “finalmente consegui”.

De início, Winston sentiu nojo. Nojo mais pelos potes que acumulavam fezes e vômitos do que pelos corpos sem vida dos gatos. Depois, o sentimento de pena foi dominante. No quadragésimo segundo gato, Winston, como que sem entender, se acostumou inteiramente com tudo aquilo, como um chimpanzé domesticado se acostuma com suas roupas de grife.

Voltemos ao 89. Winston levou o octogésimo nono gato até o lugar onde os gatos eram despejados, dentro de um saco preto de lixo comum. A sala acumulava todo tipo de lixo e era programada para abrir de hora em hora, despejando todo o conteúdo na imensidão espacial. Coletar o lixo havia se tornado costume. Tirá-lo, no entanto, lhe dava calafrios, pois se dava conta do fato de que espalhados pelo espaço sideral viviam centenas de gatos mortos em sacolas de lixo comuns, além de toneladas de torradas velhas e geleias. O vômito e fezes, no entanto, eram diluídos em um ácido que eventualmente era tratado e transformado em água potável. Ninguém sabia disso exceto o presidente da nave e o processo era segmentado de modo que ninguém da área sabia com o que mexia e com qual propósito, como ratos obesos comendo chocolate dentro de uma lixeira.

Um dia, um de seus colegas, outro coletor de gatos mortos, o parou no caminho do reator com uma notícia intrigante. Depois de não mais que seis meses, aparentemente, a diretoria queria falar com Winston.

O minúsculo escritório do gerente de seu departamento era tão fedido quanto o próprio reator, como se por alguma razão todo o odor dos gatos viajasse até lá. Era claustrofóbico, sem nenhum tipo de vista ou quadro; apenas uma mesa, um monitor e um teclado amarelado pelo tempo e uma fumaça de cigarro no ar que mais parecia o bafo de um gorila alcoólatra.

“Parabéns, Winston. Você foi promovido”, o gerente falou sem qualquer entusiasmo. “Sua vida vai mudar completamente. Vai para o setor das caixas de areia”.

Winston havia segurado a respiração para lidar com o cheiro.

“Promovido, senhor?”, finalmente perguntou. “Não esperava uma promoção tão cedo. Não até meu gato número 500, como indica o manual”.

“Não existe nenhum mistério. Perdemos alguns rapazes no setor da caixa de areia e a cada vez mais, menos gatos morrem. Estamos transferindo alguns de vocês para lá”.

“Por que eu?”

“Você se destacou”, foi a resposta. Ele virou-se para trás e ficou observando a parede como se ali existisse uma janela, com os braços cruzados para trás.

Saindo de lá, Winston ponderou que a gerência de cada departamento era na verdade o fim, que aquele gerente, diferente dele, jamais subiu para as caixas de areia. Chegou em seu aposento, sua beliche, por assim dizer; um pedaço de concreto fino que parecia uma pele de cobra lubrificada com milklurper de baunilha; em cima, um pequeno papel dizia: “novo alojamento, octogésimo quinto andar, corredor 32C, alojamento 43, cama 43-B”. Winston pegou seu único pertence, uma caixinha de balas de menta vazia em que guardava uma foto de sua filha e foi embora.

Tudo mudou. Winston passou a lidar com centenas de gatos vivos e as toneladas de fezes e urina que faziam todos os dias. O trabalho era sem sombra de dúvida muito mais puxado que o anterior, visto que os gatos entravam por um corredor o dia inteiro, vinte e quatro horas por dia, um mais apertado e estressado que o outro, como se tivessem perdido todo o seu dinheiro na roleta. Foi a primeira vez que teve contato com aqueles animais vivos. Mortos, não havia reparado na variação de cores e estilos. Alguns eram brancos, outros brancos e felpudo, pretos, olhos verdes, olhos azuis, listrados, laranja, preto e branco, siameses, cinza-estofados de sofá e infinitas variações.

Durante as primeiras semanas o ritmo acelerado e exaustivo distraía-no de absolutamente tudo e Winston dormia profundamente. Ficou dois anos limpando e trocando a areia das caixas. Sua próxima promoção o levou até o andar de alimentação. O trabalho era simples: abastecer os potes de ração e observar os gatos que já haviam comido o suficiente, dar-lhes um petisco e levá-los até a esteira que os levaria até o dormitório.

Winston começou a reconhecer alguns dos gatos e muitos deles amavam-no. Fosse o petisco ou não o causador de tal afeição, Winston se apegou a alguns deles. Quando um deles, que apelidou de “Kyoto”, não voltou a aparecer, o peso da realidade o atingiu feito um raio incandescente, carregado de uma vibração que infectou cada centímetro do seu corpo, como se tivesse fumado ópio estragado que foi guardado junto de pomada de lesão muscular.

Kyoto foi um de muitos gatos que Winston amou. Para lidar com o sofrimento, ele corria atrás de informações, para saber que tipo de vida levavam, se podiam brincar, correr, caçar e de modo geral serem felizes. Pouco obteve. No entanto, sua proatividade logo chegou aos ouvidos de pessoas importantes que viram no ato um funcionário exemplar, disposto a aprender mais que o simples trabalho braçal. Depois de ficar três anos no setor de alimentação, Winston foi promovido para um dos setores mais importantes da Felix Perpetuum: o de acoplar os gatos às torradas com geleia.

Chorou até dormir na noite anterior ao seu primeiro dia naquele que havia sido o seu primeiro dormitório individual. No dia seguinte, em menos de vinte minutos, foi ensinado a inserir o tubo pela boca do gato, que atravessava até o outro lado e que, por algum motivo, não o matava. Os gatos chegavam anestesiados e seus
supervisores diziam não sentir nada. Depois, bastava acoplar a torrada com geleia que vinha de outro departamento com fita silver tape e arremessar o gato no ar. Antes mesmo que tocasse o chão, o felino iniciava seu giro, que era, aparentemente, infinito. Winston saiu do reator antes que o gato acordasse e ele pudesse ouvir os grunhidos de sofrimento. Não havia se dado conta do som quando passava para recolher os corpos. Agora, ouvia a dor como nunca, dentro do vasto reator onde giravam centenas de gatos, uma cena que há quem diga que remete ao concerto histórico de death metal da banda Beaver of eternal dismemberment no planeta de Gyyyziz em que o palco rotacionou violentamente em sincronia oposta aos músicos.

Winston ficou quase dez anos nesse setor. Sua energia vital havia desaparecido completamente, transformando-o em um verme cinzento robótico. Seu corpo, de certa forma, precisava dessa indiferença rígida para lidar com todo o trauma. Teve uma fase em que ele acariciou os felinos e mesmo deu beijinhos para acalmá-los – acreditava que a anestesia (que não era geral) não era suficiente. Aquilo lhe trouxe um pouco de paz por alguns dias, mas logo perdeu o efeito. Nada do que fazia amenizava o ato de arremessá-los no ar em direção ao sofrimento perpétuo, o eventual alívio da morte e por fim o enterro espacial e a alma perdida num saco lixo comum.

Winston, inevitavelmente, reduziu a sua performance na esperança de que teria o seu cargo rebaixado. Enviou carta atrás de carta explicando o fardo que aquele trabalho tinha em sua mente e como acreditava que iria morrer em breve. Todos os pedidos foram formal e prontamente rejeitados.

Como foi dito, ficou dez anos no setor do arremesso, como o chamavam. Uma noite qualquer, Winston recebeu uma notificação. Não havia sido promovido, mas iria ser transferido para outro setor, o setor de ciências da procriação. Aquilo trouxe enorme alívio e cor para o rosto de Winston. Em poucas semanas ele aprendeu todas as técnicas que contornavam e faziam uso dos instintos naturais dos gatos que, como todos sabem, são extremamente territorialistas e em muitos casos individualistas. Estimular o cio felino era brincar de Deus, uma complexa manipulação da natureza e da ciência do instinto. Winston não havia percebido, mas aquilo era sim uma promoção. Seus dez anos de inferno no departamento do arremesso o transformaram no candidato ideal para lidar com a taxa de natalidade dos gatos necessários para mover a Felix Perpetuum.

Winston passou a maior parte da sua vida trabalhando com a reprodução felina. Eventualmente, tornou-se um dos dez gerentes e em poucos anos se tornou administrador do setor com outros três sujeitos. O cargo lhe conferia um luxuoso complexo de moradia, um aposento espaçoso, aconchegante. Lá, um painel de vidro com vista para o espaço que poderia, no clique de um botão, transformar o vazio em uma paisagem terráquea qualquer, viva e que respeitava o ciclo solar. Além disso, uma pequena biblioteca com uma excelente coleção de História e filosofia com mais de três mil livros, mais que o suficiente para toda a sua vida; uma poltrona clássica de couro Chesterfield imperador e uma mesa de estudos igualmente aconchegante. A melhor parte, todavia, era a cama king size com lençóis de seda trocados diariamente. Leu toda a sua biblioteca em poucos anos e a notícia logo se espalhou.

Com cerca de 60 anos de idade, Winston deixou de ser um administrador e passou a ser conselheiro. Tinha muito tempo livre e agora, além de devorar um livro atrás do outro, que vinham em pilhas todos os meses, investia o seu tempo na escrita. Nas reuniões com os líderes e administradores de cada departamento a sua opinião era muito cobiçada e respeitada. Winston fomentou o respeito de seus colegas até que um dia apresentou um artigo de 400 páginas. O artigo comprovou que gatos felizes geram uma maior quantidade de energia, além de girarem por mais tempo, reduzindo a necessidade e a mão de obra de praticamente todos os departamentos. Winston recebeu um orçamento além do almejado para iniciar o seu projeto. O lugar em que anteriormente viviam os gatos, onde eram confinados em pequenas celas deprimentes, foi demolido e se ergueu Gatópolis, um microcosmo onde os gatos podiam interagir entre si de forma natural e brincar, correr, se aventurar pelos mais diversos obstáculos, se coçar e arranhar coisas, caçar e cochilar onde bem quisessem. Algum engenheiro safado, inclusive, construiu um pequeno clube de catnip escondido que, obviamente, era usado diariamente.

Aquilo, para Winston, havia justificado todos os seus anos de sofrimentos e pecados. Sabia que, ultimamente, gatos continuariam morrendo, mas também sabia que nada daquilo iria parar e que a sua solução, mesmo que baseada em mentiras, apresentadas de forma enviesada em seu famoso artigo, havia mudado para sempre a vida dos pobres felinos. Além de Gatópolis, Winston fundou dois novos departamentos, um dedicado à continuação de sua pesquisa a fim de que sua teoria sobrevivesse além da sua vida e outro para que os trabalhadores pudessem descansar, uma espécie de Humanópolis. Um clube de drogas também foi projetado, pelo mesmo engenheiro, para além do conhecimento de Winston.

Num domingo como qualquer outro, logo pela manhã, daqueles que parece que o céu vai cair, Winston recebeu uma carta por debaixo da porta.

Querido Winston (93761856647829)

A sua presença é requisitada pelo presidente geral da administração imperial da Felix Perpetuum. Siga as instruções abaixo para chegar no local em que ele o aguardará às 14 horas.

Direções, saindo de seu aposento:

Direita, esquerda, esquerda, direita, direita, reto, reto, reto, reto, direita, esquerda, suba, esquerda, reto, esquerda, reto, direita, esquerda, desce, direita, desce, reto, esquerda, sobe, reto, direita, esquerda, reto, direita.

Obrigado.

OBS: cuidado para não acabar no departamento de criação de pão. Como sabe, é o local mais mortal da nave.

O que seria aquilo? Mais uma promoção? Aposentadoria?

Quando chegou a hora, Winston seguiu as instruções e depois de caminhar por um complexo sistema de corredores por cerca de uma hora, deu de cara em um portão com cerca de dez metros de altura, de madeira maciça, o material mais raro do universo, ornado em ouro e joias. Sua mera presença despertou a porta que rapidamente abriu.

Winston não pôde acreditar no que viu e que ali mesmo, dentro da Felix Perpetuum, existia um cômodo como aquele. Tudo o que parecia ser orgânico, como as árvores e riachos, terra e animais – de fato o era. Estupefato, seguiu uma trilha de cascalho por aquele estranho mundo que só havia ouvido falar em seus livros até avistar uma humilde casa que nada tinha de humilde por ser feita toda de madeira. A porta, assim como o portão, abriu-se com sua chegada. As mesas, cadeiras e poltronas, assim como estantes, eram todas de madeira e um tecido estranho que Winston não reconheceu, que mais parecia um pudim de chocolate de veludo. No centro de tudo, uma lareira acesa.

Winston chamou, mas ninguém respondeu.

Mais para dentro ele veio ao encontro de uma escada caracol, íngreme e apertada. Subiu-a, chegando a um sótão; logo à frente, uma poltrona de couro completamente arranhada com um estranho som emanando dela, como se alguém estivesse comendo algo cremoso e escorregadio.

“Olá?”, Winston chamou mais uma vez. Seu coração palpitava.

A poltrona virou-se e sentado nela, um gato obeso. Em seu colo, um pratinho de prata com torradas embaixo de uma montanha de geleia de morango. Ele comia devagar, como se o tempo tivesse sido inventado apenas para isso. A geleia pingava de seus bigodinhos.

Winston caiu de joelhos e uma força maior tomou conta de sua consciência. Sentia que havia sido trapaceado e que sua curta existência não passava de uma piada.

“O que é isso? O que estamos fazendo aqui? Para onde estamos indo?”

O gato lambeu os bigodes, sorriu manhosamente e miou.

O tempo pesou em suas têmporas e Winston sentiu sua consciência deixar o seu corpo.

Não uma existe resposta.

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Crítica do filme À l’abordage! (2020) de Guillaume Brac

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