Luciana Palhares
1
Não. Não mesmo. Esta não é uma daquelas narrativas inspiradoras que mudam vidas. Não é uma daquelas histórias que cobre a descida ao inferno e a previsível redenção. Nada disso. É mais uma compilação de eventos curiosos dos quais sou, por vezes, protagonista. Acredito que todos somos protagonistas de nossas próprias vidas, ou ao menos deveríamos ser, ao mesmo tempo em que somos secundários em outras tantas e, ainda, meros figurantes em outro sem número de existências.
Embora acostumada à incerteza que o movimento natural da vida causa à intimidade, não me atrevo a dar nenhum julgamento. Sou apenas veículo. No papel, a clareza que se perde nos meandros da memória se revela. O que penso tem pouco, mesmo nenhum, valor. Mudo de opinião ao sabor das adversidades.
Podia narrar meus momentos de realização, de alegria, de comunhão… Não o farei. Entendo, como se entendem algumas coisas intuitivamente, que isso é tarefa impossível. Facilmente nos identificamos com um drama, mas não com uma alegria ou satisfação. Em todos nós está escrito em língua que desconhecemos nosso potencial de felicidade, mas, como não conhecemos tal idioma, sofremos… Ouçam, pois, os meus devaneios, desencontros, desatinos. Podem parecer pequenos, irreais, mesmo absurdos, mas nada além tenho para compartilhar. Por isso peço perdão e paciência.
Paciência, amigos. Paciência.
2
Resolução de Ano Novo: depois de considerável reflexão, decidi parar de perseguir o amor. Já o persegui. Pensei sobre isso. Supostamente, já lutei por ele. Nada ajudou. Nada funcionou. A cada tentativa, quanto mais eu tentava me aproximar, mais ele se afastava de mim. Proporcionalmente.
Desisto. Agora, eu desisto. Desisto, desisto, desisto.
Amor, não te persigo mais. Você sabe que quero te encontrar e continua fugindo… Ok, entendi. É você quem deve me encontrar quando você achar que é hora…
3
Assim que entrei no bar, eu o vi, jogando sinuca com os amigos. Não dei um segundo olhar. Talvez com medo, talvez com a certeza de que ele me farejaria dali a pouco.
Pedi um cardápio ao mesmo tempo em que tentava me desembaraçar de um desses chatos de bar metidos a espirituosos.
Reposicionei-me no balcão com dois propósitos distintos: 1) me livrar do chato, que já ensaiava as vezes de cupido me apresentando um amigo; 2) ficar mais visível.
Sem demora, um amigo em comum me localizou e veio falar comigo. Não deixou de me informar que ELE estava lá. Fingi surpresa e ficou por isso mesmo.
“Sozinha?”
“Sim, acabei de chegar do trabalho com fome e vim pedir um sanduíche e uma cerveja também, é claro!” Indiquei a garrafa de 600 ml.
“Você é mesmo perigosa, menina! Vai beber tudo sozinha?”, já estava se insinuando.
“Quer me ajudar?” A deixa foi clara e eu…
“Claro. Jamais deixaria de ajudar uma dama…” Blá, blá, blá.
O resto é fácil intuir.