Jenny Rugeroni
“Quando é que você vem me ver?”
A pergunta feita com insistência, repetida a cada conversa, ecoava como uma provocação. Era prazeroso. Dava medo. Acostumada com a calmaria das serras mineiras, Juliana estranhava tamanha intensidade. Tentava atinar de onde vinha o encanto de Edmilson. Era um homem de aparência mediana: pele clara, lábios finos e pálidos, nariz grande, sobrancelhas espessas, cabelos começando a rarear. Um Chuck Norris paulistano. Sua maior beleza eram os olhos, castanhos e bondosos, que ele insistia em esconder atrás dos óculos de sol espelhados. E aquele jeito de rir… Um riso fácil, despreocupado, que surgia nas chamadas de vídeo quando ele aparecia com a toalha no ombro, indo para o banho. Dava vontade de ir junto.
Viajar era caro. Camanducaia ficava na divisa, mais perto de São Paulo que da capital mineira, mas ela não podia se ausentar do trabalho. Teria que sair num sábado à noite, reservar um hotel para dormir e voltar no domingo. Precisava inventar uma desculpa para Taciana, que não podia saber – ainda – que a mãe iria encontrar um homem. Haviam sido meses intensos, de longas e maliciosas conversas na hora de ir para a cama. Mas por que deveria ser ela a atender todos os pedidos, fazer tudo que Edmilson queria, sem saber se ele estava disposto a se doar na mesma proporção?
“E você? Por que não vem para cá? A gente poderia tomar banho na cachoeira…”
Ela escolhia com cuidado as palavras mais instigantes, aquelas que mexiam com a imaginação. Com Edmilson, não tinha limites. Detalhava o que queria fazer com ele, provocando, jogando. As palavras fluíam como uma correnteza. Na casa do sítio, cercada de vasos de plantas, passarinhos e silêncios, alimentava as fantasias. Dividia a residência com a filha, que estava namorando um rapaz da cidade e se ausentava bastante. Edmilson vivia num cubículo em uma rua movimentada, onde as conversas dos vizinhos pareciam estar dentro do quarto. Talvez por isso as palavras dele fossem mais escassas. Ou, quem sabe, por falta de habilidade para usar o celular. Não eram palavras vazias de sentido – também a provocava, exigia, desestabilizava sua rotina, tirava seu foco. E lhe fazia bem.
Chovia muito naquele janeiro. O ambiente do sítio era acolhedor, como a personalidade de Juliana. Os sapos apareciam no quintal molhado. O cachorro se esbaldava, rolando na grama e voltando para casa encharcado. Da janela, vinha um cheiro de pitanga. O sinal do celular era ruim, as conversas chegavam cortadas. Taciana queria saber com quem a mãe passava tanto tempo no telefone: fica esperta, está cheio de homem mal-intencionado por aí. Mesmo sem conhecer Edmilson direito, Juliana começava a imaginá-lo compartilhando a cama de casal, com o sol apontando na serra e atravessando a cortina de renda.
Procurou no mapa o bairro onde Edmilson dizia morar: Pirituba. Ficava na Zona Norte, um pouco distante do trajeto da linha de ônibus. Ele trabalhava na companhia elétrica, tinha dores na coluna e estava sempre sem dinheiro. Instigada por ele, Juliana vestia a lingerie de renda guardada no fundo da gaveta. Por trás da tela do celular, poderia ser o que quisesse: atrevida, sedutora, livre. O jogo era viciante. Edmilson lhe mandava vídeos: que tal a gente fazer assim? Vem para cá, que a gente faz. A intensidade dele a assustava, causando aquela perturbação no corpo. Ela pressentia que era um salto para o abismo.
Numa chamada de vídeo, enquanto deslizava as mãos pela camisola nova para provocá-lo, ele contou algo que a deixou desconcertada.
“Eu tenho uns amigos, sabe? O Rogério e a Gislaine. Um casal lá de Santos, que vem para São Paulo de vez em quando. O casamento estava desgastado, não sabiam mais o que fazer. Aí a gente se conheceu numa dessas baladas por aí. Conversa e bebida, sabe como é. E ele disse que morria de vontade de ver a mulher transando com outro cara. Lógico que não sou bobo. Aceitei o convite na hora”.
A risada dele soava despreocupada, mas Juliana estava inquieta. Teve vontade de perguntar: você acha isso normal? Era a coisa mais bizarra que alguém já lhe contara. Claro, tinha ouvido histórias escandalosas sobre os ricos da cidade, cheias de detalhes picantes, das quais sempre duvidava. Mas a vida real era diferente. Edmilson tentou justificar.
“Ah, já desisti de namorar, entende? É complicado. Uma decepção atrás da outra. Então faço isso sem compromisso. Mas quando eu encontrar um amor, deixo tudo sem olhar para trás”.
Dessa vez, Juliana se perdeu das palavras. Sentiu pena dele, enredando-se em jogos que ela não entendia. Poderia ser o amor que o libertaria daqueles hábitos? O ciúme a alfinetava.
“Ela é boa de cama? É igual a mim?”
Ele riu de novo.
“Igual a você não existe”.
No primeiro encontro em São Paulo, alguns meses antes, jantaram numa pizzaria. Sem pressa, conversaram e se beijaram por horas antes de ir para o motel. Na cama, Edmilson tinha o equilíbrio perfeito entre paixão e delicadeza. Juliana teve um orgasmo espetacular. Ao ver o lençol molhado, ficou constrangida. Não sabia de onde vinha aquilo. Ele sabia. Mais tarde, perguntou se era sempre assim com ela. Repetia a pergunta; gostava de ouvir que era a primeira vez que acontecia daquele jeito. E lhe dar prazer se tornou uma obsessão.
De volta à rotina da Serra da Mantiqueira, às vezes Juliana se apanhava lembrando da sensação: no trabalho, preparando o jantar, brincando com o cachorro. Na viga de madeira da garagem, ao abrigo da chuva intermitente, um sabiá fizera seu ninho. Quando os filhotes crescessem o bastante, iriam embora. O ninho ficaria no lugar, intocado. Talvez a mãe voltasse no ano seguinte. Podando as plantas, varrendo o chão, Juliana sentia o corpo como nunca. Seu rosto ruborizava. Como se alguém pudesse ler seus pensamentos.
“Essas coisas deixam qualquer homem alucinado”, sussurrava Edmilson quando ela o provocava, querendo saber o que havia de tão diferente nela.
“Gostou das fotos?”
“Amei…”
Naquela manhã, ela havia enviado imagens da sua silhueta na janela. De costas para a câmera, sem mostrar o rosto, as curvas do corpo desenhadas contra a luz, os cabelos soltos que chegavam ao meio das costas.
“Quando a gente se encontrar, Ju, você não tem noção do que vou fazer”.
“O que você vai fazer?”
“Na hora, você saberá…”
“Me conta, vai!”
“Não”.
Ao longo da semana, trocaram mensagens de texto. As palavras de Juliana se multiplicavam, os silêncios de Edmilson se estendiam. Ele era gentil quando lhe convinha. Ela era gentil por hábito, não sabia ser de outro jeito. Passava horas preciosas revivendo as conversas, os olhos castanhos, a voz rouca. Taciana notou a mudança. Perguntou o que era, e recebeu uma resposta evasiva. À noite, na lua minguante, debaixo de um céu limpo que era raro naquela época do ano, ela olhava as estrelas da varanda. Era desejo, mas havia algo mais. Imaginava o trabalhador sofrido da metrópole sentado à mesa de madeira rústica, rindo das piadas do namorado de Taciana. Havia se apaixonado e desapaixonado outras vezes; não adiantava ser racional. Era o instinto de preservação das espécies, uma força gritando que o tempo passava depressa, que talvez não lhe sobrasse tanto tempo assim.
Dias depois, ele sugeriu: o feriado de Carnaval seria uma ocasião propícia para a gente se ver. Ela concordou num instante. Comunicou à filha que iria viajar.
“Toma cuidado em São Paulo, mãe. É perigoso”.
Seria tão perigoso assim? Sem dúvida, poderia ficar presa na porta do metrô, não conseguir subir nas escadas rolantes, se perder no terminal rodoviário. À noite, teria de usar o transporte por aplicativo para se deslocar de um lugar para outro. Jamais circularia a pé.
Tentava acalmar Taciana:
“É a mesma coisa que aqui. Não pode se descuidar, nem andar com dinheiro na rua”.
Depois foi a emoção de planejar o reencontro, ouvir as mensagens de Edmilson todos os dias, fantasiar com as fotos que ele mandava: olha como eu estou ansioso para te ver. Tudo a estimulava. Ao mesmo tempo, alimentava o medo irracional de que acontecesse alguma tragédia. À noite, ouvia as corujas piando no descampado. Um canto de maldição? O cachorro pedia comida, o jantar esfriava no fogão, a filha pegava o carro para ir a cidade e Juliana ficava sozinha no escuro. Um dia, Taciana iria embora, como os sabiás que cresciam no ninho. Com quem poderia compartilhar os temores? Ninguém sabia exatamente o que ela andava fazendo.
Choveu no trajeto para São Paulo. As luzes lá embaixo, através do vidro embaçado do ônibus, lembravam vagalumes na beira do rio. Empolgada como uma criança, Juliana avistou os prédios iluminados da cidade. Daria tempo de chegar ao hotel, tomar banho e se perfumar. Havia escolhido um vestido prateado com bom caimento. Usaria sem nada por baixo. Somente Edmilson perceberia, ao tocá-la. Mais uma coisa que ela nunca fizera antes.
Combinaram de se encontrar num clube, onde haveria um baile de carnaval. Edmilson mandou a localização. A caminho, Juliana viu o céu encoberto. Fazia calor. Ou seria a expectativa que a fazia transpirar? Entrou no salão, olhou em volta e não viu Edmilson em meio às serpentinas douradas, aos minúsculos espelhos em fios de luz que desciam do teto. Ele foi ao seu encontro. Beijou sua boca: e aí, menina? Foi logo apresentá-la ao casal que dividia com ele a mesa. Ela os cumprimentou com um aceno. Já sabia quem eram, antes mesmo de Edmilson pronunciar os nomes. O homem tinha os cabelos grisalhos, cheios de gel, penteados para trás. A mulher, que ostentava um bronzeado forte, a observou com interesse.
“Cara, que mulherão!”, Rogério assoviou. “Você não é bobo”.
Juliana balbuciou um “obrigada”, tentando identificar o motivo do comentário. Tudo parecia falso: as pessoas dançando, os gestos afetados, a música alta demais para manter uma conversa normal – e nem era música de carnaval, mas aqueles ritmos irritantes de que os jovens gostavam. Observava Gislaine. A esposa de Rogério tinha cabelos curtos, vestia uma blusa branca decotada e uma saia jeans bem justa. Não era mais bonita do que ela. De jeito nenhum. Como é que alguém se sujeitava a essa situação? Não conseguia tirar da cabeça que Edmilson tinha ido para a cama com aquela mulher.
Depois de algumas cervejas, ele estava alegre.
“O que acha de dançar um pouco para a gente ver? Entrar no ritmo de carnaval, sabe como é”.
“Na verdade, eu não sei dançar”.
“Você é tímida mesmo, né?”, Edmilson parecia contrariado.
“Sou”. De onde tirava isso, depois de tantas conversas atrevidas?
“Mineira quietinha”.
Mas ele a exibia, encostado no balcão do bar, as mãos subindo e descendo por seus quadris. Ele estava lá para aproveitar a noite, beber e dançar com os amigos. Ela estava lá para vê-lo. Passou o tempo tagarelando com Gislaine, conversas artificiais, sem sentido: quantos filhos você tem? Trabalha com o quê? Todo o ambiente parecia irreal. Juliana sentia a boca seca, mesmo bebendo apenas água – queria permanecer lúcida. Talvez devesse ir embora de uma vez. Eram quase três da manhã quando Rogério se levantou: vamos, a gente precisa descansar antes de pegar estrada.
A rua onde Edmilson morava consistia num amontoado de casas, construídas aleatoriamente num morro. O acesso se dava por uma escadaria de cimento, sem nenhuma segurança. A cama de casal mal cabia no quarto abafado. Havia ainda uma cômoda, uma mesa e um abajur ligado na tomada. Um tapete de tear acrescentava uma nota colorida ao ambiente.
“Você quer?” Edmilson jogou a camiseta sobre a mesa de canto.
“O que você acha?” Ela se deitou, rindo, sem tirar o vestido.
Dessa vez, Edmilson não perdeu tempo com preliminares. As mãos percorreram o corpo de Juliana com pressa, insinuando-se por baixo do tecido prateado.
“Já está molhada desse jeito?”, deu um tapa na coxa dela.
“Com saudade de você”.
Ele a tomou com força. Estava bem fundo dentro dela quando perguntou:
“Você quer o Rogério?”
Juliana se assustou, balançando a cabeça com veemência. Aquele sujeito de cabelos ensebados? Essa gente se usava, sem a menor consideração.
Edmilson insistiu: “quer o Rogério?”
“Não! Não quero ninguém! Só quero você!”
Ele parou e a encarou, o olhar duro, distante.
“Ah, Ju, vou precisar de um descanso”.
No instante seguinte, estava de pé, vestindo a bermuda. Como num pesadelo, ela tentava alcançá-lo, e ele se distanciava rapidamente.
“Perdeu a graça, baby“.
“Quer que eu vá embora?”
“Você é quem sabe”.
Na claridade, Juliana o viu como realmente era. Feio. Mesquinho. Egoísta. Toda a idealização desapareceu, como uma máscara caindo no fim do espetáculo.
Nem teve consciência de como desceu a escada de cimento e chamou o transporte por aplicativo. A chuva recomeçou assim que entrou no hotel. Passou o resto da noite oscilando entre o sono e a vigília, entre o desejo e a humilhação. Não era possível que Edmilson simplesmente a descartasse. Não depois de terem compartilhado tantos segredos.
No dia seguinte, acordou com dor de cabeça. Uma fresta de sol entrava pelo vão da cortina. Edmilson mandou uma mensagem de voz: olha, Juliana, é melhor a gente não se ver mais. Você é uma pessoa boa, e vai encontrar o amor que procura. Mas não é com um cara como eu.
O quarto do hotel se encolhia. O cheiro de Edmilson estava impregnado no vestido prateado, jogado na mala. Em meio ao redemoinho nauseante da dor, pensou no que faria nos dias seguintes em São Paulo. Para quem usaria o perfume, a lingerie nova? Para quem o beijo, o carinho, as fantasias alimentadas por tanto tempo? Onde tinha errado? Não havia erro. Apenas tinha sido ela mesma, se acreditando capaz de sobreviver a um jogo que não sabia jogar.
A janela dava para uma praça e uma igreja antiga. Bonito de ver, com os prédios ao fundo. Diferente. Sobreveio uma calmaria, uma espécie de esgotamento. Então, estava resolvido. Era o fim. Nada mais de ansiedade, noites sem dormir numa espera interminável. Tantas horas desperdiçadas, sem ver beleza em nada, para quê? Se as paixões durassem para sempre, viver seria insuportável. Com o tempo, voltaria a ser ela mesma; não existia antes dele? Continuaria a existir depois. O amor e o desejo pertenciam a ela, para serem compartilhados com alegria, com a pessoa que fizesse por merecer. Por ora, poderia explorar a cidade. E, quem sabe, encontrar entusiasmo em alguma coisa que não fosse Edmilson. Havia se apaixonado e desapaixonado outras vezes. E sempre acreditara no sutil equilíbrio da natureza, devolvendo a cada um o que lhe pertencia por direito.