Lucas Cassiano
Era madrugada quando me vi abraçado por aquela criatura, criatura essa que soprava na minha nuca, um sopro tão quente que me deixava imóvel e à deriva no lago vazio do meu coração. Não sinto saudade desse sopro, desse calor e desse abraço invisível, mas queria poder voltar a chorar como naquele dia. Um choro que antes de molhar minhas pálpebras molhava o meu peito e lavava todos os meus machucados, os machucados que moldaram a minha cabeça, os machucados que me fazem ser quem eu sou, esses machucados que escravizam a minha alma nos breves momentos de felicidade.
Depois daquela noite, as madrugadas começaram a ganhar algum sentido. As madrugadas se tornaram o meu medo, as madrugadas se tornaram a minha salvação. Gostava de escutar qualquer ruído minimamente confortável para entrar em estado de transe e me esquecer de todas essas cicatrizes que me faziam ser eu. As madrugadas eram meu disfarce, elas colocavam uma máscara sem olhos no meu rosto, uma máscara que me impedia de ver o que acontecia do lado de fora.
Durante o dia essa máscara caía, e com ela o efeito anestésico das madrugadas que me livravam das dores cotidianas. Nunca fui uma pessoa antipática, muito pelo contrário, durante meus dias eu cultivava todo tipo de amizade e companheirismo que uma pessoa alegre poderia ter, mas a impressão que eu tinha era que nunca era o suficiente. Quem regula o quanto é suficiente para se viver normalmente, para se viver sem pensar no ontem, para viver sem pensar no amanhã, para viver pensando unicamente no momento em que se está respirando?
Tudo o que eu tinha eram essas madrugadas, e elas já não existiam mais. A máscara tinha virado pó e as doses anestésicas diárias tinham deixado de ser aplicadas. Tentei buscar conforto em amigos, orações e em amores, mas assim como se diz há muito tempo, “o amor pode mover montanhas, mas não é o suficiente para salvar a pessoa que você ama”, e nem mesmo o amor conseguiu me salvar de mim mesmo.
Tudo era questão de tempo, tudo era cronometrado e regulado. Eu podia ver a esperança a través de uma bela foto, obra de arte ou música, mas em minutos a foto ficava distorcida, as pinturas se tornavam estranhamente mal desenhadas e as músicas causavam nojo de tão repetitivas. Já não sentia felicidade, não sabia o que era amar e não sabia como me livrar dessas dores que me atormentavam.
Eu só orava para que uma madrugada como aquela voltasse a aparecer pra mim. Uma madrugada em que o abraço não fosse invisível, o sopro não fosse tão quente, e que o choro não fosse de tristeza. Na verdade eu só estava enganando a mim mesmo, talvez eu não queira receber esse abraço, talvez eu não queira que soprem na minha nuca, talvez eu não queira chorar e talvez eu não queira mais usar máscaras. Eu quero ser eu, eu quero saber como é meu sorriso, eu quero saber como é viver pensando unicamente no momento em que estou feliz, quero saber como é abraçar, segurar as mãos e compartilhar o meu dia com alguém. Eu quero que essa madrugada não me visite nunca mais.