Papel higiênico

Gerard van Honthorst, "O violinista feliz" (detalhe) (c. 1624)
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid

Vitor Bighinzoli

Acordei e abrindo a janela vi que o céu tinha um gosto amargo. Logo lembrei que na noite anterior, voltando do bar, comprei e cozinhei um fígado. Havia algo de hilário naquele gesto digno do senhor Bloom, mas que logo eu me arrependeria.

Batendo os ovos para o omelete sem graça que eu faço todos os dias da minha vida, eu logo senti algo como um dedão divino arranhando a parede do meu estômago. Quando pousei na privada foi como tirar um bloco de terra de dentro de um iglu. Está feito, pensei, e não terei mais problemas com isso, espero, mas o que faltou para o sossego da minha consciência foi o papel higiênico. Subi as calças pela metade e me deparei com um novo conceito, o dos homens seminus, os de calça arriada que, assim como eu, viviam pelo mundo, sem papel higiênico, deixados de lado pelo governo dos seus instintos e más decisões. Como proceder? A ideia de usar a toalha me pareceu deveras ruim, então de pulinhos fui até a sala atrás de um guardanapo, onde logo tropecei. Me limpei, finalmente, não com a toalha, mas com o toalha, e foi como ralar queijo. Satisfeito com minha ruína, novamente senti meu estômago farfalhar e decidi que não deveria poupar tempo algum e correr até o mercado atrás do higiênico.

No elevador o suor correu frio por minha testa, mas não havia nisso preocupação, e me dei conta de que meu medo de avião não vem, como o esperado, da morte, mas de ver o caos alheio em meio a uma forte turbulência, as centenas de cabecinhas balançando e todas entregues às mãos e cérebros de dois indivíduos instruídos. O elevador também é um caixa voadora, pensei, e a diarreia é tal como uma turbulência, concluí, mas, pela falta de demais sofredores, eu me mantive alerta e calmo.

Corri as fileiras de produtos atrás da minha sorte e, para minha desfortuna, dei de cara com uma conhecida. Ana. Eu gostava da Ana. Estudamos juntos na faculdade e eu tive a maior queda por ela. Eu fui comprar papel higiênico e ela legumes. “Como andam os livros?”, ela perguntou. “Não pagam bem”, eu respondi. Ela estava radiante e o seu cabelo chanel e os olhos verdes pelos quais me apaixonei gritavam por atenção. Novamente um baque no estômago, dessa vez algo como um deslizamento de terra dentro de uma caverna. Tinha de acabar com o papo e focar em meu objetivo, mas tudo piorou quando ela disse, “Às vezes eu escrevo umas coisinhas, sabia?” Eu deveria ignorá-la, queria ignorá-la, mas nunca fui bom em dizer não e, para ser franco, sempre odiei interagir com outras pessoas que também tirassem a sorte com a escrita, mesmo que o fizessem como hobby. Mas o que ela disse a seguir me pegou completamente de surpresa.

“Quer almoçar comigo? Estou fazendo uma receita minha, tipo um alfredo primavera. Podemos tomar um vinho”.

Seria impossível recusar e, quando ela inclinou a cabeça para o lado, como que implorando, eu perdi minhas estribeiras.

“Vamos”, eu disse. “Mas antes, aguenta firme que vou usar o banheiro rapidinho”.

“Não precisa, eu já peguei tudo”, ela respondeu, sorrindo. Imaginei qual seria o sabor dos seus lábios. “Pode usar lá em casa”, ela continuou.

Chegando em sua casa sentamos no sofá e eu me senti um velho de cinquenta anos.

“Está tudo bem?”, ela perguntou. “Sua testa tá suando”.

“É o calor”, eu respondi, apesar de estar fazendo algo como vinte graus.

“Eu já volto. Ah! O banheiro fica ali à direita”.

Talvez eu deva segurar, pensei. Segurar, ficar um pouco aqui com ela, dizer que eu preciso dar uma passada em casa rapidinho, cagar furiosamente e depois voltar. Passados alguns minutos, ela com duas taças de vinho.

“Como andam as coisas?”, ela perguntou.

Não vai dar! “Eu preciso ir no banheiro, desculpa”. A reação dela, diferente da que eu esperava, foi um leve enrubescimento. Um anjo na terra.

Deus sorriu para mim. Não só ela tinha um bidê como tinha aqueles sprays para tirar o mau odor, daqueles que você passa na água.

Se eu me apressar e disfarçar os sons ela jamais vai suspeitar que eu vim cagar, pensei. O sprayzinho estava nas últimas. Coloquei água da torneira dentro do frasco e diluí, formando uma quantidade suficiente para disfarçar o de um elefante. Fechei os olhos, ergui as pernas, como se estivesse agachado e fiz com que tudo saísse de uma vez. Dei um pequeno grito ou algo como um espirro para disfarçar o som e tudo ocorreu em não menos do que três minutos.

Me sentei ao seu lado no sofá, me sentindo o cara mais foda do mundo, e o clima era óbvio. Eu era um rockstar! Movido pela glória, eu me inclinei e dei um beijinho minúsculo nela e me afastei. Ela riu e me puxou pela gola. “Eu sempre quis fazer isso…”, ela disse. Então continuamos nos beijando e, quando me dei conta, eu estava com o meu nariz dentro do umbigo dela. Que dia, que grande dia, eu pensei. Mas aí, novamente, fui convocado. Mas que merda.

“Eu preciso ir no banheiro de novo, rapidinho”, eu disse.

Está no papo, pensei; no pior dos casos, ela vai achar que estou lavando o meu troço na pia, sim, ou que eu estou nervoso. Não importa. Basta seguir o protocolo da última vez e retomar de onde paramos.

Cerca de vinte e dois minutos depois eu saí do banheiro e lá estava ela no sofá, mexendo no celular. “O que é isso na sua mão?”, ela perguntou. “Papel higiênico”, eu respondi.

Ela perguntou se estava tudo bem e se eu aceitava uma água ou algo do tipo, mas eu disse que não e que tinha que ir. Depois desse encontro, eu nunca mais a vi.

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