Nostalgia do perdido

Benno Treidler, "Rua Direita" (1895)
Pinacoteca do Estado de São Paulo

Lucas Maciel

I

Em certa escola trabalhava o professor Corrêa. Orçava pelos quarenta anos, nem moço nem velho, nem feio nem bonito; vestia-se de modo vulgar, trazia os ombros baixos, o corpo descaído, numa atitude que todos julgavam cansaço e sobrepeso — e, no entanto, era só aborrecimento da própria vida.

Tornara-se, outrora, ilustre por um poema que escreveu. Poema em prosa, diga-se, porque nunca soube emendar bons versos. Tinha-os em si, com suas rimas e metrificações, mas não o estro de os saber expressar. Que os raios lhe partissem os versos! Ficava com a prosa.

Foi há dez anos. Dava ele aula sobre o romantismo quando lhe soprou a inspiração. Pegou do lápis e compôs o seu célebre poema “Saudades de Sísara”, ao modo das Canções sem metro. Alunos e professores leram-no e aclamaram-no; ao fim do dia, o texto saía publicado no Diário de Notícias, seção dedicada a assuntos do espírito.

No dia seguinte, era o Corrêa poeta, homem de paixão, fina flor da tarde, e outras delícias e alcunhas. Ele as ouvia desvanecido, fingindo modéstia, enquanto recompunha no secreto o poema, a melodia, o arremate das aias à rainha: “Sísara morreu!”

Recompunha e sorria, convencido do merecimento e das loas recebidas. 

II

Achou-se vocacionado, queria escrever. Contudo, não lhe vinha ao encontro a inspiração, que sopra onde quer. Despeitava-se por conta disso, enfurecia-se; parecia-lhe que o simples ofício de ministrar aulas era agora um rebaixamento de sua situação, a perda do antegozo do paraíso.

Não lhe ocorrendo, portanto, ideias nenhumas, ao cabo de dois lustros, amofinou-se, alheou-se, amoleceu na espera angustiosa do momento em que lhe viria de novo a centelha criativa.

Nenhum fogo lhe veio em socorro, mas sim uma ressaca que o arrastou aos precipícios do mundo. E, da mesma maneira que Camões, tornara-se um náufrago da nostalgia do perdido.

Era essa nostalgia a sua bússola, quando ia ao trabalho ou voltava dele, sem grandes animações nem descontentamentos. Saudava os alunos sem calor nem repreensão, dava poucas opiniões entre os professores; ao cabo das suas tarefas, desaparecia sem muita gente vê-lo.

Andava a pé e não tinha carro. Morava, aliás, na Rua das Aves. A casa era modesta, própria, de pouca mobília. Todo o seu requinte concentrava-se na mesa de jacarandá e na prateleira de acácia, sobre a qual se podiam ver duas dúzias de tomos de poesia.

Nunca tivera esposa; uma vizinha fazia-lhe os serviços por dinheiro. Chamava-se Laurinda e carregava bastas esperanças. Era solteirona, dois anos mais velha que ele. Faltava-lhe, além disso, beleza: tinha o rosto caído, o maxilar grande; compensava-lhe, porém, os dislates uma natureza servil, cuja devoção lhe emprestava certa qualidade que a fazia uma criatura interessante.

III

Ela o esperava todas as tardes na sala. Às 17 horas em ponto, Corrêa se retirava da escola, como uma sombra, e vinha se alongar até à porta de casa, que distava dez minutos do trabalho. Deixava os chinelos de couro no tapete e dizia baixinho:

“Boa tarde”.

“Boa tarde, professor! Como foi o seu dia? Deixei tudo como me pediu: a verdura está na mesa e o gabinete lustrado”.

“Agradeço-lhe, Laurinda, mas não tenho fome”.

“Como assim? Sente alguma coisa?”

“Estou bem; é apenas um enfado”.

Mentia o professor. Tossia há vários dias, perdia peso, recentemente acometera-lhe as terçãs. Podia ser influenza ou pneumonia.

“Não quer ir ao médico? Posso acompanhá-lo…”, arriscou Laurinda.

“Para me receitarem um caixão? Não há necessidade; logo passa”.

“Sabe que pode me chamar para o que precisar… Se tiver necessidade de alguma coisa, toque a campainha”, respondeu, e deitou sobre ele uns olhos cálidos.

“Toque a campainha”, arremedou o professor ao abrir o gabinete. Estava de fato lustrado. Sentou-se e deixou-se ficar: os olhos perdidos viam descobrir-se de novo o passado, a glória efêmera das suas expansões líricas.

Minutos depois, ergueu-se, pegou da prateleira o Baudelaire e leu o Esplim de Paris. Intercalava a leitura com a tosse, tosse seca, rouca, que lhe chupava o ar e lhe tingia a cara de vermelho. Em seguida, abriu, tateou a gaveta da secretária, à cata do que parecia um tesouro perdido, tirando de dentro um papelinho amarrotado com o manuscrito do seu poema.

“Nunca fui tão feliz como quando o escrevi!”, disse, deitando aos dois parágrafos de sua vida um beijo. “Se ao menos me fosse dado escrever de novo, se eu pudesse expressar ainda que fosse o mais modesto dos poemas…”

Sentia arder o corpo, um calafrio a lhe percorrer a espinha. Lentamente pegou de papel e tinta. O suor molhava as folhas. Esboçou um parágrafo, depois outro, rabiscou um desenho, lembrou de amores e tristezas, anedotas e escândalos do noticiário; nada o salvava.

Quando lhe sucedeu dar forma a duas linhas, confessou que não eram suas, mas fiapos de Baudelaire, que ele pespontava sem perceber.

Para pôr rédeas ao seu processo criativo, fixou-se em episódios bíblicos, em Isaque imolado, nos pedaços da concubina que o levita despachara pelo correio, na punição das onze tribos ao moço Benjamim; nem mesmo isso lhe avultava no espírito.

Começou a sentir dores nas pernas. Nos últimos dias dissimulara a enfermidade à base de comprimidos. Agora resignava-se: morrer lhe era ruim, mas viver nas saudades do que já foi, muito pior. Arrastou-se até a cama, os ossos alquebrados.

Deitou-se vestido. Não teve forças para fechar a janela defronte. O sereno piorou-lhe os pulmões; a noite foi de sufocação.

Quando entreabriu os olhos de manhã, Laurinda chorava desesperada, pedindo socorro. Da janela via-se o ipê chovendo flores. Assentou ao peitoril um rouxinol. Parecia não ter medo de gente; pousou e cantou uma leve e bela canção.

Essa canção, todavia, ecoou dentro do Corrêa como um insulto, uma afronta.

“Sem inspiração, o que sou? Um mísero mestre-escola”, pensou ele. “Arranque ao pássaro as suas penas, nem por isso deixará ele de saber cantar!”

Ele rilhou então os dentes, crispou as mãos; a febre aumentou, uma febre alucinante, seguida de contrações e espasmos. Laurinda deu um grito de terror. O professor Corrêa, ao fim de minutos de estertores intensos, morreu.

IV

No enterro, leram-lhe sobre o caixão as “Saudades de Sísara”. Pouco tempo depois, esqueceram-no.

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