Rodrigo Cabral
operário: quem?
operário: quem? tu
que tens o vento pestilento, tu
que tens o vento sorrateiro, tu
que tens o vento mensageiro, tu
que tens o vento monumento, tu
que tens o vento contra o vento
diz como funciona o teu pulmão
no céu enlameado das marolas
nas sobras d’água das salinas
na morte debulhada em êxtase
nos elos de cada nota torta
diz em qual praça jaz o teu busto, operário,
tuas melodias inacabadas,
tua intenção, teu tempo, teu contratempo.
operário: quem?
pulsação d’água
a pulsação d’água
contrai e expande
o que a palavra refina
nos batimentos
das remingtons
debulhando botões
verdejando espasmos
na restinga das paráfrases
dos átrios e ventrículos
para os vasos de alta salinidade
onde ovos chocam
onde vogais e camarões
ruborizam
onde aspas rebentam
no íntimo dos glóbulos
n’aorta das sílabas
enquanto o hífen-cateter
da célula-mater
mantém o ritmo da criação
em gênese: arritmia
esta é
a pulsação d’água,
sempre que vida,
a pulsação d’água,
ante o espasmo,
sangue geológico
bombeando prelúdios
epílogos renascimentos
e na operação da palavra
um transplante cardíaco
de poeta para poeta
de peito para peito
para que a poesia
continue batendo
no berçário de aves migratórias
esta é
a pulsação
d’água nascente
manejo aflito
aflição não é commodity. aflição é
a ponta do bisturi no produto irreplicável
azul-turquesa derramado nos marnéis
demandas d’alma sobre o mar morto
dos trópicos
remove: camadas de paisagem florida
remove: contornos simétricos impecáveis
devolve: sal e gordura da carne
peca
com teus versos roídos pelo devir
com teus versos em riste para a vontade
com teu esforço repetitivo
entre o espelho d’água e a ira nos olhos
dos gaviões
peca
quando cotejares o feixe com tuas dúvidas
quando farejares texto com tuas fadigas
quando comeres um quilo de sal com tua cria
viaja bem distante do teu umbigo
para delinear a figueira da infância
deixá-la viver por conta própria
aflita sempre aflita
na esquina da fantasia