Entre a erupção e a forma: o caos inacabado de A noiva!

Miguel Forlin

Poucos filmes fundacionais do cinema fantástico conservaram uma vitalidade tão inquieta quanto Frankenstein (1931) de James Whale. O que poderia ter se cristalizado como mera curiosidade histórica — uma adaptação pioneira de um romance já consagrado — permanece, ao contrário, como uma obra que ainda pulsa, tanto pela sua economia narrativa quanto pela precisão imagética. Whale constrói o filme com uma sobriedade quase ascética: cada plano contém uma intenção dramática exata, como se o cinema ainda estivesse descobrindo, naquele momento, a extensão da sua própria gramática. A famosa criação do monstro, com seus relâmpagos e maquinarias, não é apenas um espetáculo técnico; é um ritual cinematográfico que transforma a ciência em liturgia e o laboratório em catedral profana.

No centro desse universo, a atuação de Boris Karloff é decisiva, e não apenas por sua expressividade física como também pela forma como ele transforma a criatura em um ser simultaneamente aterrador e comovente. Whale compreende que o horror mais duradouro não está na monstruosidade exterior e sim na possibilidade de reconhecimento: o monstro não é apenas o outro, mas uma extensão trágica do humano. A mise-en-scène, com seus contrastes expressionistas de luz e sombra, reforça essa ambiguidade, criando um espaço em que a ciência moderna e o terror ancestral se entrelaçam. O filme, assim, estabelece um paradigma: o horror como drama moral, como fábula sobre responsabilidade e criação.

Se Frankenstein já é uma obra de impressionante coesão, A noiva de Frankenstein (1935) eleva esse universo a um nível ainda mais sofisticado, expandindo-o em direções inesperadas. Whale abandona qualquer pretensão de realismo e abraça um tom deliberadamente artificial, quase operístico. Desde o prólogo, com a presença ficcionalizada de Mary Shelley, o filme se assume como uma narrativa dentro da narrativa, uma espécie de teatro do grotesco em que o exagero é uma virtude estética. Essa autoconsciência confere ao filme uma leveza paradoxal, permitindo que ele oscile entre o horror, a ironia e até o humor.

A introdução do dr. Pretorius, interpretado por Ernest Thesiger, é um dos grandes golpes de gênio de Whale. Pretorius é uma figura que encarna o lado mais perverso e sedutor da ciência: ele não busca apenas criar vida, mas brincar com ela, manipulá-la como um demiurgo caprichoso. Sua presença desloca o eixo moral do filme, tornando-o menos uma tragédia sobre a responsabilidade e mais uma reflexão sobre o desejo de poder e a teatralidade da criação. Ao mesmo tempo, o monstro de Karloff ganha novas camadas de humanidade, especialmente em suas interações com o eremita cego — uma sequência que permanece como uma das mais delicadas e comoventes do cinema clássico.

No entanto, é na sua dimensão formal que A noiva de Frankenstein atinge o ápice. Whale compõe um universo visual que parece antecipar tanto o barroco quanto o camp, com cenários que são ao mesmo tempo grandiosos e artificiais, quase como maquetes de um mundo em colapso. A noiva em si — interpretada por Elsa Lanchester — aparece por breves instantes, mas a sua imagem é indelével: um ícone que condensa o horror e a beleza em uma figura única. O filme termina com um gesto de destruição que é também um ato de lucidez: o monstro reconhece a impossibilidade da sua própria existência. É um final que faz do espetáculo uma tragédia metafísica.

É precisamente essa herança — simultaneamente estética, moral e mitológica — que A noiva! (The Bride!, 2026), de Maggie Gyllenhaal, tenta revisitar, reconfigurar e, em muitos momentos, incendiar. O filme não se contenta em dialogar com os clássicos: ele os devora, os fragmenta e os reinscreve em uma linguagem que é, antes de tudo, contemporânea. Há algo de profundamente vulcânico em sua construção, como se cada cena estivesse à beira de uma erupção — emocional, estética ou narrativa. Gyllenhaal parece mais interessada em criar um campo de forças, um espaço no qual imagens, referências e sensações colidem de maneira imprevisível.

Essa dimensão visceral é, sem dúvida, o grande triunfo do filme. Há momentos em que A noiva! atinge grande intensidade, como se estivesse constantemente reinventando a si mesmo. A câmera se move com uma liberdade quase febril, recusando a estabilidade e abraçando o risco. A trilha sonora, a montagem e a direção de arte parecem operar em registros distintos, mas convergentes, criando uma sensação de excesso que, longe de ser gratuita, traduz um desejo de romper com qualquer forma de contenção. Nesse sentido, o filme se aproxima mais de uma experiência sensorial do que de uma narrativa convencional: ele quer ser sentido antes de ser compreendido.

Ao mesmo tempo, essa mesma energia que impulsiona o filme é também aquilo que o fragiliza. A ausência de um roteiro mais coeso torna-se evidente à medida que a narrativa avança, ou, mais precisamente, se dispersa. Há ideias poderosas — sobre identidade, criação, desejo, alteridade, liberdade —, porém elas raramente se articulam de maneira consistente. O filme parece confiar excessivamente na força das suas imagens, como se a intensidade estética pudesse substituir a construção dramática.

Essa fragilidade é particularmente visível na maneira como A noiva! lida com suas inúmeras referências cinematográficas. Gyllenhaal demonstra um conhecimento vasto e uma sensibilidade aguçada para a história do cinema; contudo, essa erudição, em vez de ser integrada organicamente, muitas vezes se manifesta como um acúmulo. Há referências à Ida Lupino, ao Fred Astaire, à Ginger Rogers, aos longas Persona – quando duas mulheres pecam (1966) e Bonnie e Clyde – uma rajada de balas (1967), entre outras, mas esses elementos nem sempre dialogam entre si de forma produtiva. O resultado é um filme que, em certos momentos, está mais interessado em citar do que em ressignificar, mais em evocar do que em elaborar.

Essa sensação de dispersão é agravada por uma direção que, embora ousada, carece de uma firmeza maior. Gyllenhaal demonstra um olhar singular, uma disposição para o risco que é, sem dúvida, admirável, mas frequentemente lhe falta o controle necessário para transformar o caos em forma. O que em A noiva de Frankenstein era um “caos controlado” — uma combinação precisa de excesso e rigor — aqui se aproxima de uma desagregação. O filme parece hesitar entre múltiplas direções, como se não conseguisse decidir qual de suas muitas possibilidades deseja explorar até o fim.

E, no entanto, seria injusto reduzir A noiva! a essas limitações. Há algo de profundamente vivo em sua imperfeição, algo que o distingue de tantas produções contemporâneas excessivamente calculadas. O filme não busca a perfeição; ele busca a intensidade, o impacto, a possibilidade de criar algo que ainda não tem forma definida. Nesse sentido, a sua própria dispersão pode ser vista como um sintoma da sua ambição: ele quer abarcar demais, dizer demais, sentir demais.

Talvez o maior mérito de Gyllenhaal seja justamente este: recusar a segurança, recusar a previsibilidade. Em um cenário cinematográfico frequentemente dominado por fórmulas e franquias, A noiva! se apresenta como um ato de insubordinação, uma tentativa de reinventar não apenas um mito específico, mas tudo o que toca. Mesmo quando falha, ele falha de maneira interessante, abrindo caminhos em vez de fechá-los.

Ainda assim, permanece a sensação de que o filme poderia ter sido mais — não necessariamente mais contido, mas mais articulado. Um roteiro mais estruturado, que desse maior densidade aos personagens e maior coerência às referências, poderia ter convertido essa energia bruta em algo verdadeiramente monumental. Da mesma forma, uma direção mais firme, capaz de organizar o excesso sem domesticá-lo, poderia ter elevado o filme a um patamar próximo ao de seus ilustres predecessores.

No fim, A noiva! se impõe como uma obra fascinante justamente por suas contradições. Ele é, ao mesmo tempo, um triunfo e uma promessa não cumprida, um filme que deslumbra e frustra em igual medida. Se Frankenstein e A noiva de Frankenstein representam o equilíbrio entre forma e excesso, entre rigor e imaginação, o trabalho de Gyllenhaal se situa em um outro extremo: o da explosão, da tentativa de reinventar tudo de uma vez.

E talvez seja justamente aí que resida o seu valor mais duradouro. Pois, mesmo em sua dispersão, o filme nos lembra que o cinema ainda pode ser um espaço de risco, de experimentação e de desmedida — um lugar no qual o caos, mesmo quando não completamente controlado, ainda é capaz de gerar beleza.

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