Clara Velloso Borges
E agora, que estou aqui
Fiz conta em ábaco, quebrei o cofrinho,
analisei rotas em GPS,
acendi vela, roguei uma prece,
só para seguir por este caminho.
E agora, que estou aqui, o fio d'água
segue em hidrogênio e em oxigênio.
Sequer me molha mais por convênio,
nem escorre menos salgado em mágoa.
Se, por aqui, passasse um panapaná,
eu, mesmo largata, me esticaria.
Então você, arguta, indagaria:
não era aquele o rumo, tão teu, e pra já?
E já esvoaçando, de asa meio em pé,
digo que sim, foi, e voo para onde agora é.
Penélope
De todas as virtudes, paciência.
Só não espero que nada a mim volte.
Ao costurar sobre alheia ausência,
aguardo que a novidade me escolte.
Mesmo o que já foi ainda está comigo,
é o fio da linha que tece a colcha,
ornamentando o que já foi antigo,
para não deixar memória frouxa.
Até se voltasse, iria variar,
como mudam os heróis das jornadas.
O dedo enroscado em roca de fiar
é o mesmo que se rasga nas espadas.
Nada há de voltar, pois ainda se farão.
De todos os fenômenos, criação.
Diariamente
Todo dia, eu te quero toda sexta,
pra dizer qualquer coisa meio besta,
que é tudo o que eu sei: você me flutua.
Tremulo ao vento, sem tocar a lua,
mas se o que me eleva é teu endereço,
eu viraria a lua pelo avesso e
rosa alguma me faria especial.
Só perdi tempo com rosa em teu quintal.
Todo dia, eu te quero todo dia,
desafiando a sorte, astros, magia...
Todo dia em que eu te amo é feriado.
Calendário maia estava errado.
O fim do mundo só vai acontecer
todo dia, quando eu não puder te ter.