Os sinos da matriz

Maria José Leite Pereira

Edificada nos finais do século XVIII e princípio do XIX, a Igreja matriz de Torredeita tem como padroeira Nossa Senhora da Anunciação. Monumento arquitetónico de silhueta simples, com uma única torre inserida na fachada, é um adorno delicado que compõe a paisagem dessa pacata Vila composta por oito aldeias: Vila Chã, Novaes, Várzea, Routar, Casal, Vilas Covas, Magarelas, Carqueijal e Torre. Com vista do Caramulo e da Serra da Estrela, Torredeita que foi elevada a categoria de Vila no dia 13 de maio de 1999, e no ano de 2013, conforme a Lei nº 11-A/2013, perdeu o estatuto de freguesia e foi inserida na União de Freguesias de Boa Aldeia, Farminhão e Torredeita. Logo, as mudanças impostas pelo tempo carcomem as antigas estruturas socais, assim como a ferrugem corrói o comboio parado na antiga estação ferroviária.

Mas nesse quadro de mudanças, que pode ser atribuído a diversos fatores, alguns elementos têm conseguido sobreviver, e outros até mantêm-se aparentemente fixos e imutáveis, pois nesses casos algumas mudanças se deram, mas foram pouco notadas. Ao que tudo indica, foi o que aconteceu aos sinos da Igreja matriz, que tocam diariamente para marcar as horas, dobram para anunciar mortes e em dias festivos repicam como sinal de alegria, portanto o ecoar dos sinos aqui em Torredeita, para além da eficácia simbólica enquanto ferramenta que expressa a importância do catolicismo na construção da identidade cultural europeia, tem uma função prática de comunicar eventos. Ora, em geral essa comunidade vive um tempo científico-tecnológico guiado pelas horas dos ecrãs e pelos turnos de trabalho; contudo, a maior parte da população consegue diferenciar uma chamada para a missa de um aviso de morte.

Embora as origens dos sinos antecedam o cristianismo, foi na Idade Média, no ano de 604, que, inspirado pela premissa do evangelho: “orai sem cessar” (Primeira carta aos Tessalonicenses, 5:17), o Papa Sabiniano instituiu o toque desses instrumentos para marcar as horas canónicas. A partir de então, durante séculos, o som dos sinos demarcaram os ritmos de vida por toda a Europa, e no universo agrícola medieval extrapolou a função religiosa, transformando-se no principal veículo de comunicação que advertia sobre os acontecimentos locais, além de ser a ferramenta que determinava os momentos de pausas no horário de trabalho. Assim: ”(…) O ressoar dos sinos medievais era a maneira pela qual o tempo era orquestrado na mesma medida em que modelava o curso dos eventos que constituíam a economia senhorial: a colheita dos cereais de inverno, o anunciar das vindimas, a tosquia da lã, as prestações das corveias, o cumprimento campesino da fiscalidade” (Lacey & Schimitt, 199; Le Goff, 1996).

A expansão das sociedades urbanas a partir do século IV e o surgimento de novas práticas principalmente no mundo do trabalho suscitaram novas formas de medir o tempo. Contudo, os sinos revestidos de atribuições laicas foram levados para marcar a vida urbana a partir das chamadas torres de trabalho instadas nas praças. Não obstante, o som dos sinos teve a função de medir o tempo dentro das novas estruturas sociais que estavam a construir-se. “No texto citado por Aire, em 1355, diz-se claramente que a torre do sino de trabalho foi primeiro feita para a defesa da cidade aí subir ao pôr do sol, tocar as vésperas e por aí avisar os perigos e inconvenientes que poderiam vir à dita cidade por culpa de malfeitores ou outros” (Le Goff, 67). Assim, no período pré-industrial marcado pelos conflitos entre o clero e os novos grupos que emergem, “por vezes, observamos a coexistência dos dois sinos, sem defrontação ou hostilidade” (Le Goff, 68).

Com o desenvolvimento das técnicas e a redefinição de tempo, os sinos retornaram ao espaço circunscrito do sagrado; porém, nunca silenciaram. Entretanto, o som dos sinos também passou por mutações. No dia 21 de abril desse ano [2024], uma Igreja em Utrecht na Holanda pôs os seus sinos a tocarem músicas do DJ Avancini como forma de o homenagear por ventura de sua morte. Dessa forma, um pouco por toda Europa os sinos ainda dobram. Em Portugal, é possível ouvir o toque dos sinos, mesmo nas cidades. Entretanto, a figura do sineiro está em vias de extinção. Em Torredeita, tal e qual outras paróquias, a força braçal que fazia tocar os sinos foi substituída por um sistema automático que pode ser comandado a distância. Aqui, apesar da introdução da técnica, manteve-se o toque “original” dos sinos, ao contrário de outras Igrejas, que substituíram suas batidas por uma gravação da Ave-Maria de Fátima.

Assim, alinhados com o relógio da torre, os sinos marcam um tempo que não cessa de passar, e nos fins de tarde convocam para oração com o toque das Trindades. Aos sábados e domingos, emitem seu aviso sonoro uma hora antes da celebração eucarística; em dias festivos, repicam para compartilhar alegria, mas é o fenómeno da morte que faz o som dos sinos ecoarem mais fortemente em Torredeita. Quando morre algum membro da comunidade, a Igreja, através do toque dos sinos, tem a função de comunicar a morte especificando o sexo. Desse modo, os sinos dobram duas vezes quando morre uma mulher, três vezes quando morre um homem; e caso o falecido seja da comunidade de Vila Chã do Monte, povoado que fica mais afastado da Vila, o sino dá um sinal inicial antes das batidas habituais para informar o sexo. Depois de anunciar a morte, os sinos dobram mais duas vezes, a primeira uma hora antes do funeral para convidar a comunidade a participar da cerimónia. Por fim, durante o curto trajeto da Igreja até o cemitério, segue-se o bamboar dos sinos que acompanha o cortejo fúnebre e só silencia quando o corpo entra no cemitério.

Desse modo, durante o verão, a Igreja de Torredeita ergue-se vigorosa irrigada por uma luminosidade ininterrupta oriunda dos filetes de luz que atravessam seus vitrais e dos raios do sol poente que entram livremente pelo pórtico e incidem sobre o altar dourado. E, nos meses mais frios do ano, flutua entre a bruma matinal, formando uma pintura monocromática que nos remete à penumbra de um sonho. Essa visão vertiginosa orquestrada pelo ressoar dos sinos a marcar as primeiras horas do dia, o canto dos pássaros e o som da água que escorre pelo córrego em direção a ciclovia causam-nos a sensação de estarmos a percorrer um espaço limiar entre a ficção e a realidade. Mas o tic-tac do relógio no pulso, a música vibrante do telemóvel na mala e o som da buzina dos carros na estrada impõem-nos a realidade de um tempo que se esvai enquanto seguramos uma mãozinha gorda a caminho da escola.

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Carmina annae

“pensar as relações entre os limites do trabalho poético”

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