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Uma quase resenha de quase contos

Wassily Kandinsky, Sem titulo (1910). Aquarela.
Centre Georges Pompidou, Paris.

Luiz Eduardo de Carvalho

A Solidão dos anjos, de Marco Aurélio Cremasco, obra parida em 2021 numa bela edição da Confraria do Vento, apresenta 27 textos em prosa que, pela ausência de outro gênero a defini-los, eu diria serem quase contos, pois muitos deles são bastante heterodoxos no tangente ao emprego dos elementos próprios da narrativa nesse gênero literário cada vez mais diversificado pelo experimentalismo contemporâneo em busca de novas formas de narrar histórias, principalmente as curtas.

Quase contos, quase crônicas, quase dramas, quase ensaios líricos, quase prosa poética. O resultado, contudo, firma-se bem além da soma dos quases em suas múltiplas possibilidades.

No suceder ligeiro das páginas, navega-se por acontecimentos com personagens imprecisos: quase sem nomes, apelidos, idades, procedências, aspectos, contornos, trajes, trejeitos; ditos com vozes que se confundem, mesclam-se, cindem-se, às vezes, quase sem a própria voz com que se dizer.

Também quase não há lugares exatos, em vez disso fragmentos de espaços em um mosaico composto pela cola de um tempo amiúde também indeterminado.

Encadeamento de ações praticamente ausente para dar lugar a insinuações de sucessão de acontecimentos quase imóveis, circunstanciados em composição imagética: ora cubista, ora surrealista,  ora cruamente realista. São quase telas de cenas gravadas por palavras pinceladas, deveras expressivas, por vezes expressionistas, noutras impressionantemente impressionistas, sempre refletidas da luz difusa do que não é expressamente dito; não, ao menos, com os contornos da prosa convencional. São, sim, quase pinturas.

Assim, apresentam-se como narrativas quase estáticas, com alicerces fincados em terreno movediço, como dito de orelha por quem as apresenta. Dragadas pelo lirismo e pelos questionamentos ligeiros que semeiam dúvidas ao proporem suas certezas.

Ou serão só sussurros de solitários anjos a soprarem possibilidades de destinos consumados,  testemunhados pelas retinas e transfigurados pela imaginação do autor, patenteando tons autoficcionais?

Quase neobarrocas, ou pós-modernas, como se diz por aqui, as narrativas levam e trazem citações sortidas, emprestados personagens literários ou míticos e muitas tramas quase revisitadas, não em meros ecos, mas retramadas em amplificações que as atualizam ao reflexo da leitura destes nossos dias embriagados de referências.

Resulta que forma e conteúdo viram armadilhas a reterem, na atenção dos leitores, miríades de possibilidades de encantamento com as inauferíveis maneiras de se contar histórias.  O livro é – desta vez não quase, mas integralmente – um muito prazeroso desafio de decifração como, aliás, deve ser toda a boa literatura que não se destina ao mero entretenimento.

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