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Um sonho de papel

Luiz Eduardo de Carvalho

Algumas lembranças, por mais cativantes que possam ser seus relatos, interessam tão pouco quanto aqueles sonhos que temos e insistimos em compartilhar com alguém próximo que, só pela intimidade, finge ouvir com atenção o maravilhamento de nossa narrativa repleta de descrições que não conseguem sequer tangenciar as imagens, os recados e os conteúdos oníricos.

Quanto mais remotas se tornam tais recordações, mais se assemelham aos sonhos, cujas imagens vão se apagando ao longo do dia e, irremediavelmente, acabam sumindo. Algumas, contudo, são resistentes, acompanham-nos por longa data, seja pelo impacto que o fato gerador nos causou ou por alguma outra particularidade que nos mantém atados a elas.

Eu, que hoje sou escritor, e dedico-me com exclusividade à produção literária já há uma década, guardo algumas dessas renitentes lembranças ligadas ao universo dos livros, da leitura e da criação artística que sempre me fascinou e, muitos anos mais tarde, tornou-se o meu ofício, eleito entre tantos que, durante décadas, representaram o meu ganha-pão. Difícil dizer se guardo as recordações pelo amor às letras, ou se tenho tal sentimento por guardá-las em meu íntimo. Fato é que há uma relação muito estreita entre aquilo de que me lembro em relação aos primeiros contatos com a leitura e o deleite de, hoje, produzir materiais como aqueles que um dia li. No mínimo, é um diálogo entre o presente e o passado que projeta instigantes possibilidades criativas para o futuro!

Estava cursando a sexta série ginasial, hoje Ensino Fundamental II, quando a professora de português, dona Amelinha, declarou que leríamos um livro recém-lançado com um título bastante sugestivo para a garotada daquela idade que ainda não tinha o hábito da leitura: Para gostar de ler, uma coletânea de crônicas de quatro autores, lançada pela mesma editora, a Ática, de cujo catálogo eu já havia lido um ou outro volume da Coleção Vagalume.  Aliás, naqueles dias, o conjunto das obras que eu conhecia não excedia dez, talvez doze títulos, pois não havia a profusão de livros infantis que hoje se vê em qualquer livraria, digo, site de venda de livros! Tanto que me lembro, com certa aversão, de ter sido obrigado a ler, com apenas nove anos de idade, a obra Cazuza, de Viriato Corrêa, que, independente de sua atestada qualidade, foi uma tijolada anacrônica na estreia da longa lista de títulos que a escola reservava para os anos subsequentes.

Eu, como milhares de outros alunos de todo o Brasil, fui arrebatado pelo pequeno volume ilustrado e com diagramação inovadora, num projeto elaborado pelo capista Mário Cafiero e pelos artistas gráficos Ary Normanha e Antônio do Amaral. O volume 1 trazia, além de uma breve biografia dos quatro autores – Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga –, cinco conjuntos de quatro instigantes e delicadas crônicas, uma de cada escritor, divididas em temas: crianças, animais, no mundo do consumo, tipos humanos e a linguagem do homem. Fascinado, fiz a primeira leitura completa em apenas uma tarde de chuva, num sábado que ficou indelevelmente marcado no calendário de minhas mais caras e remotas memórias impressas com a mesma tinta dos livros.

Muitos anos mais tarde, fui saber que aquele título inaugural da coleção, em sua primeira edição, teve uma tiragem, imaginem, de cem mil exemplares, após um dedicado trabalho editorial de Jiro Takahashi, que reuniu um grupo de professores para fazer a triagem das crônicas que deveriam entrar no primeiro volume, além de confirmar os nomes que comporiam o quarteto de cronistas. Assim, antes de imprimir a centena de milhares de exemplares, fizeram uma tiragem experimental de três mil que logo confirmou ser aquela a fórmula para um sucesso editorial.

O sucesso do lançamento foi tanto que a segunda edição trouxe mais cento e cinquenta mil exemplares e, depois do volume de estreia, mais quarenta e seis se seguiram com mais crônicas, poemas, contos, novelas, mitos indígenas, textos de humor, narrativas africanas e outros gêneros e subgêneros que enriquecem o repertório de milhões de crianças e adolescentes nesses mais de quarenta e cinco anos de circulação.

Ao longo dos anos, fiz muitas mudanças de endereço e minha biblioteca foi, a cada vez, diminuindo de tamanho, não só pelo transtorno de encaixotar e carregar tantos títulos, mas, sobremaneira, pela minha crença de que livros devem circular, trocar o pó da inatividade das prateleiras domésticas por mãos e retinas ávidas por leitura. Assim, costumo doar, a cada migração, uma boa quantidade de títulos, de modo que bem poucos dentre os mais antigos ainda estão comigo. Entre eles, este volume precioso que guardo, ainda com a ficha de Suplemento de Trabalho imaculada, dobrada sob a primeira orelha que quase se destaca da capa na edição já rota, esfacelada, com páginas amareladas, ameaçando soltar-se. Uma pequena joia de papel desgastada por muitos anos de manuseio meu e de tantas pessoas a quem a emprestei sob juras expressas de ser devolvida.

Neste ano de 2023, comemoramos o centenário de nascimento de Fernando Sabino, justamente um dos quatro autores que vieram a mim neste convite Para gostar de ler. Depois, ao longo da vida, leria muito de sua obra, senão ela completa, mas não com o mesmo enlevo pueril que marcou o primeiro contato com os cinco textos daquela coletânea: “Hora de dormir”, “O dia da caça”, “Aspirador”, “Se não me falha a memória” e “Macacos me mordam”.

Revendo hoje a pequena biografia que o livro trazia impressa com letras brancas sob o fundo negro, comemoro algumas semelhanças entre a minha e a vida de Fernando Sabino. Ele era o caçula de uma família de seis filhos, eu era o quinto de uma também com seis; foi criado no quintal de uma casa, algo que também experimentei; escrevia com pretensões literárias desde os bancos da escola; gostava de nadar, de ver futebol, de aprender coisas inúteis como os truques de escoteiros… talvez fôssemos todos assim naqueles dias (embora eu fosse quarenta anos mais novo do que ele), quem saberá dizer se todas as crianças tinham aquelas coisas em comum, mas gosto de pensar que estou mais próximo do escritor mineiro do que muitas das outras que o leram e nem imaginam onde hoje ele esteja em suas apagadas lembranças.

O texto, que abre o citado livro, é o “Hora de dormir”. Eu, criança notívaga, que me tornei um adulto com predileção absoluta pelas horas noturnas, seja por imposição do relógio biológico ou por condicionamento desde aquela infância de incursões na programação televisiva da madrugada, identifiquei-me de pronto e a crônica fez o papel de um portal para ingressar no possível autoconhecimento que as boas leituras nos trazem. Um precioso espelho, hoje sei. Outro aspecto marcante dessa crônica é o fato de ela dispensar as falas do narrador. Tudo se conta por meio de um diálogo entre uma criança e seu pai, sem sequer haver indicação dos chamados verbos dicendi, ou de elocução, de declaração; aqueles que, ao término de cada fala aparecem como “falou Fulano”, “respondeu Sicrano”, “perguntou Beltrano”. Isso torna o texto uma pequena peça dramatúrgica, uma cena curta, ou esquete teatral, que viria a ser, ao longo de toda a minha vida, não sei se também por essa influência, o meu gênero narrativo preferido. Sempre me pareceu desafiador demais contar uma história apenas por intermédio da fala de seus personagens e mais, sem o auxílio das imagens como nas cine- e teledramaturgia, cujos roteiros pressupõem ações, gestos e outros recursos que complementam o sentido da cena e que não cabem no texto quando restrito a falas.

Os outros quatro textos de Fernando Sabino no meu livrinho-talismã também são memoráveis, se não pelos temas sempre com alguma graça, ao menos pela forma gostosa como ele conta os fatos como se fossem “causos”, coisa de mineiro, creio eu. Chego a ouvir a prosódia das Minas Gerais comendo pedaços de algumas daquelas palavras ali postas e alinhadas para fazer sonhar com caçadas de codornas na fazenda; com o maravilhamento diante da tecnologia, por mais banal que seja; com a invasão inusitada de macacos manauaras numa cidadezinha do interior de Minas; ou com as peças que a memória nos prega. Bom é poder resgatar essas maravilhas antes que a minha própria memória fique como a do advogado da crônica do Fernando, voltando sempre a um ponto como se ele estivesse acontecendo pela primeira vez. Ou será que já estou assim, no exato instante em que componho esta minha crônica?

Acho que não, só estou reincidindo nesta narrativa num fato que foi mesmo como um sonho, com certeza muito mais interessante para mim, que o tive, do que para você, leitor, colocado como receptor de seu conteúdo, cujo sentido mais profundo, antes que a memória o leve embora, só quem o sonhou pode alcançar. Mas não custa tentar compartilhar, não é? Quem sabe ele suscite outros belos sonhos como este ou, ao menos, agradáveis momentos de diversão com a leitura das crônicas do mestre Fernando Sabino que tanto me ajudou a gostar de ler!

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