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“Notas sobre pintura” de Edward Hopper

Nighthawks, 1942. From: The Art Institute of Chicago, Fifty-third Annual Exhibition of American Paintings and Sculpture. Chicago: 1942.

Edward Hopper

Tradução de Pedro Rocha Souza

Alfred H. Barr, Jr. (1902-1981), historiador da arte e crítico estadunidense, realizou, em 1933, quando diretor do Museum of Modern Art (MoMA), a primeira retrospectiva do museu sobre Edward Hopper (1882-1967). À época, Alfred descrevia Hopper sendo “o mais interessante pintor da América”, quem denominava por “mestre do drama pictórico”. O presente ensaio de Hopper se encontra no catálogo da exposição: Edward Hopper, Retrospective Exhibition, 1933.


I

Minha intenção, em pintura, foi sempre a transcrição a mais exata o possível de minhas mais íntimas impressões da natureza.1 Se esse propósito é irrealizável, também, pode-se dizer, é a perfeição em qualquer outro ideal de pintura ou em qualquer outra atividade humana.

A tendência artística em alguns dos movimentos contemporâneos, mas de modo algum em todos eles, parece negar esse ideal e, para mim, levar a uma concepção puramente decorativa da pintura. Pode-se, talvez, atenuar essa afirmação ao se dizer que tendências aparentemente opostas contêm cada uma delas alguma parte módica da outra.

Tentei apresentar minhas sensações na forma mais congênita e impressiva possível para mim. Os obstáculos técnicos da pintura talvez determinaram essa forma; ela também surge das limitações da personalidade: disso, talvez surgiram as simplificações as quais busquei.

Encontrei, ao trabalhar, sempre a incômoda intrusão de elementos alheios à minha visão pessoal, e a inevitável obliteração e substituição dessa visão pelo trabalho enquanto ele progredia. A luta para evitar essa degradação é, penso, o lugar comum de todos os pintores para os quais a invenção de formas arbitrárias não interessam.

Acredito que grandes pintores, em sua maestria intelectual, buscaram transformar estes meios renitentes, a pintura e a tela, num registro de suas emoções . Acho que qualquer desvio dessa maior intenção me leva ao maior dos tédios.

II

O problema do valor da nacionalidade em arte talvez seja irresoluto. No geral, pode-se afirmar que a arte de uma nação é tão mais valiosa quão melhor reflete o caráter de seu povo. A arte francesa parece ser a prova disso.

Os romanos não eram um povo esteticamente sensível, e nem por isso o domínio intelectual grego sobre eles destruiu o seu caráter étnico; porém, não se pode dizer que eles produziriam uma arte mais original e vital sem aquela dominação. Pode-se traçar um não tão distante paralelo entre a França e o nosso país. A dominação francesa no domínio das artes plásticas tem sido quase integral nos últimos trintas ou mais anos neste país.

Se o aprendizado era necessário, penso que nos foi útil. Qualquer outra relação futura que se assemelhe nos levará apenas à humilhação. Até porque não somos franceses e nunca poderíamos ser, e qualquer tentativa para que nos tornemos é negar uma herança e tentar impor a nós mesmos um caráter que não será nada senão apenas um verniz superficial. 

III

No sentido mais restrito, a arte moderna parece se preocupar apenas com as inovações técnicas da época. No seu mais amplo e para mim irrevogável sentido é arte de todos os tempos; das personalidades definitivas que permanecem para sempre modernas pelas verdades fundamentais que existem nelas. É isso que faz Molière em seu melhor tão recente quanto Ibsen, ou Giotto tão moderno quanto Cézanne.

O que as descobertas técnicas podem precisamente fazer para auxiliarem o meios interpretativos não é evidente. É verdade que os Impressionistas deram uma representação mais crível da natureza através das suas descobertas nas pinturas ao ar livre, mas que eles melhoraram como artistas ao fazê-lo é algo controverso. É preciso notar que Thomas Eakins, no século XIX, usou métodos do XVII, e ele é um dos poucos pintores da última geração aceito pelo pensamento contemporâneo neste país.

Se as inovações técnicas dos Impressionistas levaram apenas a uma mais precisa representação da natureza, talvez não foram elas de muita valia para que desenvolvessem suas capacidades expressivas. Talvez virá, ou talvez já veio, o tempo em que já não mais seja possível um maior progresso nos modos de representação crível. Há aqueles dizendo que esse momento já chegou e buscam substituí-lo por um traço cada vez mais simplificado e decorativo. Essa direção é estéril e não dá esperança alguma para os que desejam dar à pintura um significado mais rico e mais humano e uma perspectiva mais ampla.

Ninguém pode atinar corretamente com a direção em que a pintura tomará nos próximos anos, mas, para mim, parece ao menos ser uma repulsa contra a invenção arbitrária e estilizada da criação. Haverá, penso, uma tentativa de apreender novamente a surpresa e os acidentes da natureza; um mais íntimo e simpático estudo dos temperamentos, juntamente com maravilhamento e modéstia renovados por parte daqueles que ainda são capazes de possuírem essas reações básicas.


O texto introdutório é do tradutor.

1 Em entrevista a Brian O’Doherty, em 1964, trinta e um anos após a retrospectiva do MoMA, Hopper afirmou: “Goethe declarou, ‘o início e o fim de toda atividade literária é a reprodução do mundo que me cerca através do mundo que está em mim, todas as coisas apreendidas, relacionadas, modeladas e reconstruídas numa forma pessoal e numa maneira original’. Para mim, isso se aplica à pintura, fundamentalmente, e sei que há… há muitas opiniões diferentes sobre pintura; agora, muitos protestarão que esse é um modelo ultrapassado e datado, mas eu penso que ele é fundamental” (N. do T.).

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