é nóS

Candido Portinari, "Carnaval" (1960)
Projeto Portinari, Rio de Janeiro

Wagner Ramos Campos

Ainda não é
Carnaval
Mas a manhã
Ou amanhã
Um caboclo elétrico
Ouve o marulhar do sol
Igual
Até que a caravela
Vestida de nuvem
Que o atropela.
Homens e mulheres
Vomitados
E o vento envergonhado
O mar grávido
De gravíssimos crimes
O futuro dá um nó
Na garganta do Senhor Capitão:
— QUE COMECE A FOLIA!

QUISERA SER
Forte
como uma velha senhora
que chora
Um cabo de aço que se parte
Um tirano que perdoa
Hoje me desfaço
Deixo estilhaços por onde passo
Vacila a última pena
Do meu cocar
Meu império desmorona
Queimam bibliotecas mundo afora
Nossa história mastigada
Pelo cão dos infernos
Celulares afogam-se
No Dilúvio 2.0
Motores em curto
Fumaça para os alvéolos
Ácido para a chuva
Para os olhos, espinhos
Para a cabeça, martelo
Enquanto nosso amor
Sem juízo e sem final
Desabrocha nas frestas
Dos escombros
Como um animal
Difícil de morrer

:. CONFUSÃO NO SINAL .:
luz alucinada
solinho de guitarra caribenha
que num sei quê
que num sei que lá
¡PAH!
corre neguinho!!
hoje foi teu pai amanhã
Senhor por favor
onde é que fica aqui a saída
pras Bahamas
? Não aquela pra Machu Pichu
atrás do véu
da cachoeira
ou outra beira
qualquer de mar
de rio de água
boa pra pessoa se afo
- ar
? Não
fale assim:
na abundância das águas
tem sempre
1 com sede
2: foco;
(pra que serve o ponto e vírgula?)
diga pra si: eu sou
3 – senso do ridículo
pelamordedeusné
? chega
um dia
em que
a pe
ssoa can

E SE FOSSEM LÁGRIMAS DA DEUSA
Lágrimas de sangue a correr
A manchar lençóis
Dunas, vinhedos de dor
Vermes roendo pedra
Monstros indefesos
Filhos da mãe que não queria
Queria sim era só ser
Menina matreira de sorriso
Cambalhota no meio do sinal vermelho
Gente-Deusa como qualquer
Arribação do sonho de leite
Todavia não era
É só petróleo, é asfalto
É estrada aberta na mata
É o fim do caminho?

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