Miguel Forlin
Em homenagem a Ray Bradbury (1920-2012) e François Truffaut (1932-1984)
Fahrenheit XXI
(parte 3 de 3)
A cidade acordava todos os dias com o mesmo ruído: o silvo elétrico dos drones de vigilância, o estalo distante das sirenes, o coro de telas ligando-se ao mesmo tempo, como um rebanho de olhos que se abre ao amanhecer. Ninguém mais dizia “bom dia”; dizia “ao vivo”. Ao vivo para quem, para onde, para que, não importava. O importante era estar transmitindo, estar conectado ao fluxo que substituíra o antigo mundo — aquele feito de salas escuras, cadeiras rangentes, latas de filme, cheiros de poeira e cola, silêncios que se estendiam por minutos, cenas que pediam paciência.
Os filmes antigos eram um problema. Tornaram-se um obstáculo para o novo regime de entretenimento: as Produções Originais — assim se chamavam oficialmente — que os serviços de streaming, junto aos poderes estatais, haviam erigido como padrão universal. Eram conteúdos rápidos, modulados por algoritmos, desenhados para gerar retenção e microemoções calibradas. Não pretendiam durar; pretendiam repetir. Cada episódio, cada longa, cada evento vinha acompanhado de métricas que as garantiam: o espectador sorriu aos trinta e dois segundos, distraiu-se aos quarenta e sete, recuperou a atenção aos cinquenta e dois. A arte, se algum dia fora outra coisa, tornara-se um exercício de engenharia de atenção.
No início, a transição foi suave. As salas fecharam por “razões econômicas”, as cinematecas “reformularam os seus acervos”, os festivais “se reinventaram”. Depois vieram as campanhas: O novo é melhor. O passado é elitista. Os filmes antigos são longos demais, silenciosos demais, difíceis demais. Em seguida, a legislação: os acervos físicos passaram a ser classificados como “material de risco cultural”, pois “podiam induzir frustração, ansiedade e sentimentos de inadequação”. Por fim, a solução prática: as Brigadas de Depuração Audiovisual. Não eram censores, diziam; eram curadores. Não queimavam arte; reciclavam ruído.
As chamas eram reais, porém. As latas de película estalavam como ossos. Os VHS derretiam, exalando um cheiro doce e tóxico. Os DVDs curvavam-se em estalidos secos. Os discos rígidos, quando atingidos por calor suficiente, soltavam um suspiro final, como um último buffering.
Um dos curadores chamava-se Luís Augusto. Trabalhava na Quarta Brigada, turno noturno. Vestia o traje têxtil por hábito e prática. Gostava da precisão do trabalho: buscar, catalogar, crepitar. Gostava da purificação posterior, da percepção de cumprir toda tarefa sem proibições. E gostava, sobretudo, do fato de que não precisava pensar no que queimava. Pensar, aprendera cedo, era um resíduo de outros tempos.
O capitão de sua brigada, Inácio Salamandra, era um homem de frases prontas e sorriso calibrado. Dizia sempre que o cinema antigo era “um vírus de lentidão”, que as pessoas não precisavam de histórias “que não conversam com você”, que os novos conteúdos eram “democráticos, acessíveis, feitos para todos”. Quando falava, o tom era tão suave quanto definitivo.
“Guto”, dizia, “não estamos destruindo nada. Estamos libertando as pessoas da obrigação de entender coisas que não precisam mais ser entendidas”.
Guto assentia. O assentimento era parte do uniforme.
Numa noite, o endereço era um prédio antigo na rua São Clemente, um edifício de quatro andares que sobrevivera às ondas de modernização por pura negligência. O pedido de intervenção viera de uma denúncia anônima: “acervo audiovisual não autorizado, potencialmente nocivo”. O drone confirmara sinais térmicos irregulares e a presença de caixas metálicas.
A brigada entrou seguindo a rotina. Porta arrombada, escada em espiral, poeira no ar. O primeiro andar estava vazio; no segundo, uma sala com prateleiras cheias de caixas de VHS etiquetadas à mão. Guto reconheceu, sem querer reconhecer: O sétimo selo, Vertigo, A regra do jogo, Os incompreendidos. Títulos que ele ouvira em algum lugar, como nomes de ruas por onde nunca passara.
“Catalogar e proceder”, ordenou Inácio.
As chamas começaram. O fogo é uma linguagem simples: não discute, não argumenta. Guto sentiu o calor penetrar nas luvas. Um VHS caiu e deslizou até seus pés. Ele o empurrou com a bota para dentro da pilha ardente.
No terceiro andar, encontraram latas de película 35mm, empilhadas como cilindros de um templo pagão. Havia um projetor coberto por um lençol. Inácio puxou o pano com uma teatralidade automática.
“Nostalgia é uma doença, Guto”.
O fogo comeu a sala.
No quarto andar, no entanto, algo interrompeu o fluxo. Atrás de uma estante, havia uma porta estreita que dava para um quarto pequeno. Uma mulher idosa estava sentada numa cadeira, as mãos no colo, diante de um televisor antigo ligado a um videocassete. Na tela, uma imagem tremia: um homem caminhava por uma estrada, o vento movendo os campos ao redor. Não havia som; apenas o sussurro mecânico da fita.
“Senhora, afaste-se”, mandou Inácio.
Ela não se moveu. Olhou para Guto. Seus olhos não pediam nada; apenas estavam ali, como se fossem parte da projeção.
“Eu não posso”, disse ela. “É aqui que eu moro”.
“Não mora”, corrigiu Inácio. “A senhora está ocupando um espaço com material proibido”.
“Eu moro no filme”, respondeu ela, com a naturalidade de quem descreve um endereço.
Guto sentiu um desconforto que não era medo. Era uma fricção interna, como se duas engrenagens tivessem dentes incompatíveis. Ele olhou para a tela. O homem caminhava. O vento movia os campos. Não havia cortes rápidos nem trilha manipuladora. Havia tempo.
“Qual é?”, perguntou Guto, sem saber por quê.
“Stalker“, disse a mulher. “É de um russo. Não se importa com você. Isso é o que eu gosto”.
Inácio fez um gesto impaciente. Dois agentes se aproximaram da televisão.
“Senhora, por favor”.
Ela levantou-se, lentamente, e ficou diante do aparelho, como se fosse abraçá-lo. Não gritou, não resistiu. Apenas disse:
“Quando vocês queimarem, não vai sobrar nem o silêncio”.
O fogo foi acionado. A idosa saiu do quarto sem olhar para trás. Guto ficou por um instante, observando a imagem ser engolida pelo brilho laranja. O homem na estrada desapareceu. O vento cessou.
No relatório, constou: “Intervenção realizada. Material eliminado. Nenhuma ocorrência”.
Naquela noite, Guto não conseguiu dormir. Em seu apartamento, as paredes eram telas. Ele poderia escolher entre dezenas de Produções Originais: séries que se ajustavam ao humor do momento, filmes que mudavam o final conforme o batimento cardíaco. Abriu um aleatoriamente. Uma história sobre uma família em crise, com diálogos que pareciam escritos por um manual de comunicação não violenta. Ele assistiu por vinte minutos, sentiu as microemoções prometidas e, ao final, não se lembrava de uma única imagem.
Quando fechou os olhos, viu o homem caminhando na estrada. Viu o vento.
Na manhã seguinte, encontrou-se com Clara no corredor. Ela morava no apartamento ao lado e trabalhava como analista de métricas em uma das plataformas. Eram conhecidos de elevador: trocavam cumprimentos, às vezes uma piada.
“Você está pálido”, disse ela.
“Mal dormi”.
“Excesso de tela”, diagnosticou, sorrindo. “Deveria pedir um ajuste no algoritmo”.
Ele quase contou. Não contou.
No turno seguinte, a brigada recebeu uma ordem de maior porte: uma antiga cinemateca nos arredores da cidade, supostamente reativada por um grupo clandestino. O endereço era um galpão de tijolos à vista, janelas altas. A equipe avançou com mais cautela do que o habitual.
Dentro, encontraram fileiras de estantes, projetores, mesas de montagem, cartazes nas paredes. Havia pessoas — jovens, na maioria — sentadas no chão, olhando para uma tela improvisada. Quando a brigada entrou, ninguém correu. Apenas se viraram, como quem é interrompido no meio de uma frase.
“Vocês não podem estar aqui”, disse Inácio.
Um rapaz de barba rala levantou-se.
“Nós estamos assistindo a um filme”.
“Esse é exatamente o problema”.
“Qual?”, perguntou o rapaz. “Que não é novo?”
“Que não é autorizado”.
“Autorizado por quem?”
Inácio sorriu.
“Pela lei”.
O filme continuava projetado atrás deles. Era em preto e branco. Um trem chegava a uma estação. Pessoas desciam, acenavam. A imagem tremia levemente, como se respirasse.
“É dos irmãos Lumière”, disse uma moça. “Cento e trinta anos atrás”.
“E ainda funciona”, completou outro.
A brigada começou o procedimento. Os agentes se moveram, colocando marcadores nas estantes. Guto sentiu uma vertigem: era material demais. Enquanto os outros preparavam os dispositivos incendiários, ele caminhou até a mesa de montagem. Havia uma lata aberta. Dentro, a película corria como uma fita de tempo. Ele tocou com a ponta do dedo. Estava fria.
“Guto”, chamou-o Inácio. “Precisamos agilizar”.
O rapaz de barba rala aproximou-se dele.
“Você sabe o que está fazendo?”
“Meu trabalho”.
“Que trabalho?”
Guto abriu a boca para responder com a frase de sempre. Nenhuma saiu. Olhou para a tela. O trem ainda chegava.
“Vocês não sentem falta?”, perguntou o rapaz. “De algo que não tenta te agradar?”
“Isso é… elitista”, disse Guto, fraco.
“Não. É humano”.
Inácio fez um gesto. O fogo foi acionado.
A cinemateca transformou-se num incêndio de frames. O preto e branco se dissolveu no laranja. O cheiro de celuloide queimada era diferente do de plástico; havia nele uma nota agridoce, quase de papel antigo.
Na saída, o rapaz gritou:
“Vocês podem queimar as cópias, mas não o que elas nos fizeram!”
Guto não se virou.
Nos dias que se seguiram, pequenas fissuras se abriram em sua rotina. Ele começou a perceber como as Produções Originais se repetiam: as mesmas estruturas narrativas, as mesmas tramas, as mesmas resoluções confortáveis. Começou a notar que suas próprias reações eram previstas: o sorriso no minuto tal, a lágrima no outro. Era como se sua vida interior tivesse sido terceirizada.
Certa noite, ao voltar para casa, encontrou um envelope sob sua porta. Dentro, um pendrive antigo, com uma etiqueta: “Para quando você quiser ver”.
Ele olhou para o corredor vazio. Sabia que aquilo era ilegal. Sabia que deveria entregar à Brigada. Guardou no bolso.
No apartamento, desligou as paredes-tela. Havia uma porta que nunca usava: um pequeno depósito. Dentro, havia um aparelho antigo que o antigo morador abandonara: um leitor de DVD portátil, enferrujado. Guto conectou o pendrive a um adaptador improvisado. A tela pequena acendeu.
Apareceu uma imagem: uma mulher sentada em um quarto, olhando para a câmera. Falava em um idioma que ele não entendia. Havia legendas: “Eu não sei se isto é uma história ou uma confissão”.
Ele assistiu. Não era confortável. Havia longos silêncios, planos que duravam mais do que o costume. Em alguns momentos, ele se pegava querendo avançar; em outros, esquecia. Ao final, sentiu algo que não era uma emoção calibrada. Era uma espécie de deslocamento: como se a sua mente tivesse sido movida alguns centímetros para o lado.
Quando a tela escureceu, ele percebeu que estava chorando.
No dia seguinte, contou a Clara.
“Você está brincando com fogo”, disse ela.
“Eu sei”.
“Não é apenas ilegal. É…”, ela procurou a palavra, “desnecessário”.
“Desnecessário para quem?”
Ela respirou fundo.
“Guto, eu trabalho com isso. As métricas mostram que as pessoas não querem mais essas coisas. Elas querem se sentir bem, compreendidas, representadas. Esses filmes antigos… exigem demais”.
“Exigir é ruim?”
“Exigir o quê? Tempo? Atenção? As pessoas não têm isso”.
“Ou aprenderam a não ter”.
Ela o olhou como se ele tivesse dito algo inconveniente.
“Você está romantizando o passado”.
“Talvez. Ou talvez eu esteja apenas… lembrando”.
“Lembrando de algo que você nunca viveu?”
Ele sorriu.
“Talvez seja isso que a arte faz”.
Ela se afastou rapidamente.
Naquela semana, Guto começou a faltar ao trabalho. Alegava enxaquecas, cansaço. Em casa, assistia a tudo o que o pendrive continha: filmes de várias épocas, países, estilos. Alguns o entediavam; outros o irritavam; outros o desarmavam. Havia um em que quase nada acontecia: uma mulher caminhava por uma cidade vazia. Ao final, Guto sentiu que aquela caminhada tinha, de algum modo, atravessado a sua própria vida.
Uma noite, bateram à porta.
Era Inácio.
“Podemos conversar?”
Sentaram-se na sala, com as paredes-tela desligadas.
“Você anda estranho”, disse o capitão. “Faltas, relatórios atrasados. Isso não é você”.
“Talvez seja”.
“Você está envolvido com material proibido?”
Guto não respondeu.
Inácio suspirou.
“Eu te conheço há anos. Sei que você não é um agitador. Você não é desses que acham que o passado tem alguma coisa a nos ensinar. O passado é o que ficou para trás. O presente é aqui. E aqui é melhor”.
“Melhor para quem?”
“Para todos”.
“Mesmo?”
Inácio inclinou-se para a frente.
“Guto, você sabe por que fazemos o que fazemos?”
“Para… proteger as pessoas?”
“Exato. Para evitar frustração, confusão, esse sentimento de inadequação que esses filmes geram. Eles mostram mundos que não são os nossos, ritmos que não são os nossos. As pessoas se sentem pequenas, burras, excluídas. As Produções Originais são inclusivas. Falam com todos”.
“Ou falam por todos”.
“O que você quer dizer?”
Guto levantou-se, foi até o depósito e trouxe o aparelho portátil. Colocou um trecho de um filme. Na tela, um homem olhava para o horizonte, em silêncio, por um tempo que parecia indecente.
“O que isso faz com você?”, perguntou Guto.
Inácio observou por alguns segundos.
“Nada”, disse. “Absolutamente nada”.
“Exato”, disse Guto. “Não faz nada por você. Mas faz algo com você. Desloca. Incomoda. Não te dá o que você quer; te mostra o que você não sabia que precisava”.
“Isso é elitismo emocional”.
“Ou é apenas… liberdade”.
Inácio levantou-se.
“Você está se colocando em risco. E, pior, está colocando outros em risco. Essas coisas se espalham”.
“Ideias se espalham”.
“Vírus também”.
“Você realmente acha que um filme é um vírus?”
“Eu acho que qualquer coisa que não se encaixa no sistema é um problema”.
“Então o problema é o sistema”.
Inácio o encarou por um longo momento.
“Você tem vinte e quatro horas” disse. “Entregue o material. Volte ao trabalho. Ou eu farei o que a lei me obriga a fazer”.
Quando ele saiu, Guto sentiu um frio que não vinha de fora.
Na madrugada, alguém bateu novamente à porta. Dessa vez, era o rapaz da cinemateca.
“Nós sabemos quem você é” disse ele. “Sabemos o que você tem”.
“Como?”
“Porque você não queimou tudo”.
Guto hesitou. Disse:
“Vocês estão em perigo”.
“Nós sempre estivemos”.
“O Inácio vai vir”.
“Então é agora”.
Eles desceram pelas escadas, atravessaram ruas secundárias, entraram em um prédio abandonado. No subsolo, havia uma sala improvisada. Em caixas, pendrives, discos rígidos, até algumas latas de filme resgatadas. Um projetor antigo apontava para uma parede branca.
“Não podemos salvar tudo”, disse o rapaz. “Mas podemos lembrar”.
“Lembrar como?”
“Decorando. Reencenando. Transmitindo uns aos outros”.
“Como monges”, disse Guto.
“Como espectadores”.
Sentaram-se. A projeção começou. Um filme sem trilha sonora, com planos longos de um homem em um quarto. Nada parecia acontecer. Depois, uma porta se abria. Um som distante. Um corte. Guto sentiu o tempo se esticar.
“Por que vocês fazem isso?”, perguntou.
“Porque, quando eu vejo isso”, disse a moça apontando para a projeção, “eu sinto que alguém me trata como adulta. Não como uma criança que precisa de estímulos o tempo todo”.
“Porque isso me lembra que o mundo não existe para me agradar”, disse outro.
“E isso, estranhamente, me consola”.
O filme terminou. Ficaram em silêncio.
“Eles vão encontrar vocês”, disse Guto.
“Provavelmente”.
“E então?”
“Então vamos assistir enquanto pudermos”.
Na manhã seguinte, as sirenes cortaram o bairro. Drones sobrevoavam o prédio. A brigada cercou a entrada. Inácio estava à frente.
“Guto!”, chamou. “Saia agora”.
Guto olhou para a sala. As pessoas estavam sentadas, imóveis, como se o mundo lá fora fosse um ruído distante.
“Não posso”, disse.
“Você pode. Basta sair”.
“Eu moro no filme”, respondeu.
Inácio fechou os olhos por um instante.
“Você está me obrigando”.
O fogo foi preparado. Os dispositivos foram posicionados.
“Última chance”, disse Inácio.
Guto caminhou até o projetor. A tela mostrava agora uma estrada. Um homem caminhava. O vento movia os campos.
Ele pensou na idosa do quarto, na cinemateca, em Clara, em sua própria vida reduzida a microemoções. Pensou no que aconteceria quando as chamas começassem. Sabia que não havia heroísmo ali, apenas uma escolha.
“Vocês podem queimar as cópias”, disse, “mas não o que elas nos fizeram”.
Inácio fez o gesto.
O fogo entrou impetuosamente. O projetor estalou. As caixas começaram a arder. O calor subiu.
Guto não correu.
Disseram que fora um acidente. Um foco de incêndio em um prédio abandonado. Disseram que alguns jovens haviam sido imprudentes. Disseram que a brigada agira com rapidez.
Clara assistiu ao comunicado em sua parede-tela. O algoritmo detectou tristeza e ofereceu um conteúdo de conforto: uma Produção Original sobre perda e superação, com trilha suave e final reconfortante. Ela assistiu por alguns minutos. Sentiu a microemoção correta. Ainda assim, algo a incomodava, como uma música que não saía da cabeça.
Naquela noite, encontrou um envelope sob sua porta. Dentro, um pendrive com uma etiqueta: “Para quando você quiser ver”.
Ela segurou o objeto por um longo tempo.
Os anos se passaram. As Produções Originais tornaram-se mais eficientes, mais adaptativas. A indústria consolidou-se em poucas plataformas. As pessoas diziam estar mais satisfeitas, mais representadas, mais compreendidas. As métricas confirmavam.
Mas, aqui e ali, surgiam relatos estranhos: alguém que desligava as telas e ficava em silêncio por horas; alguém que buscava arquivos antigos na rede profunda; alguém que falava de filmes que “não se importam com você”.
As Brigadas continuaram seu trabalho. Novos Inácios vestiam uniformes, aprendiam a não pensar, a executar. Inácio aposentou-se, convencido de que havia feito o correto.
Em um subúrbio distante, em uma casa com janelas sempre fechadas, um pequeno grupo se reunia uma vez por semana. Não tinham projetor; tinham memórias. Uma moça recitava a sequência de um filme que vira apenas uma vez. Um rapaz descrevia um plano de cinco minutos em que nada acontecia. Outro imitava os trejeitos de um vagabundo.
Não era perfeito. As lembranças se distorciam. Os detalhes se perdiam. Mas algo permanecia: a sensação de que existira um tempo em que as imagens não vinham prontas para consumir, em que o espectador precisava caminhar até elas.
Na cidade, as telas continuavam a acender ao amanhecer. O ruído permanecia. Mas, em alguns apartamentos, as paredes ficavam escuras por um tempo. Alguém se sentava no chão. Alguém fechava os olhos e via um homem caminhando em uma estrada, o vento movendo os campos, um trem chegando à estação.
Uma criança perguntou:
“Por que eles queimaram?”
Um velho respondeu:
“Porque o que não cabe no mundo deles precisa virar cinza”.